Giuliano da Empoli, em seu livro “Os Engenheiros do Caos” (tradução Arnaldo Bloch. 1ª. ed. São Paulo: Vestígio, 2019), narra: sob essa vertente da Física Social, a campanha de Trump de 2016 deu um grande passo à frente.
Através de um investimento maciço no Facebook e graças à equipe de técnicos gentilmente postos à disposição pela empresa de Mark Zuckerberg, os spin doctors digitais de Donald testaram 5,9 milhões de mensagens diferentes, contra 66 mil de Hillary, colocando assim em prática, de maneira compulsiva, o processo de otimização contínua.
Mas a campanha de Trump não se contentou em utilizar os Big Data para elaborar as mensagens mais eficazes destinadas a seus próprios apoiadores. Ela instalou também um dispositivo maciço para desestimular os eleitores democratas de irem às urnas, concentrando-se em particular em três alvos:
- os liberais idealistas, brancos, que haviam apoiado a campanha de Bernie Sanders, o rival democrata de Hillary durante as primárias;
- as mulheres jovens de 18 a 35 anos; e
- os afro-americanos residentes em bairros conturbados das grandes cidades.
Os primeiros foram bombardeados por mensagens sublinhando as ligações de Hillary com a comunidade financeira, os negócios obscuros da fundação de seu marido e todas as informações, verdadeiras ou falsas, de modo a corroborar a imagem de uma candidata ávida e corrupta, irremediavelmente comprometida com o “partido de Davos”.
No que se refere às mulheres jovens, a campanha de Trump não parou de lembrar os escândalos sexuais na carreira política de Bill – dos quais essas mulheres não estavam necessariamente a par, porque os fatos datavam de pelo menos duas décadas – e apresentando Hillary como cúmplice de um marido pervertido, movida ou por pura fraqueza, ou por uma ambição sem limites.
Enfim, os afro-americanos dos guetos urbanos foram alvo de mensagens relembrando a reforma na assistência social – ela traria o fim das ajudas incondicionais – e um discurso de Hillary no qual ela descreve certa categoria de homens de cor como “superpredadores” e precisados de ser “postos de joelho”.
A parte legal desses esforços – aquela que utilizava vídeos e informações reais – foi conduzida diretamente do quartel-general da campanha digital de Trump, em San Antonio, Texas.
A parte ilegal, calcada na manipulação e nas fake news, teve um papel essencial. Ela foi gerenciada de maneira descoordenada por terceiros, blogueiros e sites de informação da direita alternativa, na América e igualmente, ao que parece, em lugares os mais inesperados, como a Macedônia e São Petersburgo.
Desse magma indefinido emergiram os ataques mais absurdos – e os mais seriais – contra a candidata democrata, da acusação de ter vendido armas ao Estado Islâmico à de comandar uma rede de pedófilos no porão de uma das pizzarias mais populares de Washington.
O resultado de todo esse trabalho é, no dia das eleições, muitos eleitores democratas terem ficado em casa, abrindo as portas da Casa Branca aos seguidores de Trump, mesmo onde estes representassem uma minoria do eleitorado tomado em seu todo.
Para além dos casos particulares, que foram objeto de numerosas investigações jornalísticas ou judiciais, é possível tirar pelo menos duas conclusões de caráter mais geral.
Em primeiro lugar: uma máquina superpoderosa, concebida originalmente para mirar com precisão incrível em cada consumidor, seus gostos e suas aspirações, irrompeu na Política.
No início, essa máquina não foi concebida para atingir objetivos políticos, mas essencialmente comerciais. O Facebook e as outras redes sociais são plataformas publicitárias que põem à disposição das empresas instrumentos extraordinariamente avançados para chegar a seus clientes. Mas, uma vez criada, fica claro que essa máquina pode igualmente ser utilizada para fins políticos, como realmente ocorreu nos últimos anos.
Considerando que são simples motores comerciais, as redes sociais não são equipadas – e não têm interesse algum em ser – para impedir os desvios e os abusos.
A única coisa a lhes interessar é o engajamento – o tempo de cada usuário na plataforma. Que esse valor aumente em função de um bombardeio de fake news antissemitas, pouco importa para o Facebook. Ao contrário, considerando que seu business model funda-se no fato de não ser um órgão de informação – se não, teria de responder diante da Justiça pelos conteúdos que publica –, o Facebook deve, a todo preço, permanecer neutro em matéria de conteúdo. Para a plataforma, tanto os cientistas quanto os negacionistas são iguais e devem continuar iguais, sem o que todo o edifício sobre o qual se ergue o império de Zuckerberg desmoronaria.
Em segundo lugar: graças a essa máquina, as campanhas eleitorais cada vez mais se tornam verdadeiras guerras entre softwares, durante as quais os oponentes se enfrentam com a ajuda de armas convencionais (mensagens públicas e informações verdadeiras) e armas não convencionais (manipulação e fake news) com a meta de obter dois resultados:
- multiplicar e mobilizar seus apoios e
- desmobilizar as bases do adversário.
Essa partida ainda não tomou o lugar do jogo político tradicional, mas está em vias de assumir uma importância capital. Já começou a impactar visivelmente nossa sociedade.
No velho sistema, cada líder político só dispunha de instrumentos bastante limitados para segmentar seus eleitores. Ele podia enviar mensagens específicas a certas categorias de base – sindicatos, pequenos empresários e donas de casa –, mas precisava fazê-lo publicamente. Quem quisesse criar um consenso majoritário – e não só de nicho – tinha que se dirigir ao eleitor médio com mensagens moderadas, em torno das quais poderia convergir o maior número possível de pessoas.
O jogo democrático tradicional tinha, portanto, uma tendência centrípeta: ganhava aquele que conseguisse ocupar o centro da arena política.
O mundo dos físicos de dados funciona de maneira diferente. Aqui, para criar consenso, o fato de lançar um projeto político capaz de convencer todo mundo conta muito menos, visto o povo, massa compacta, foi abolido em benefício de uma reunião de indivíduos separados, cada um passível de ser seguido em seus menores detalhes.
Em uma situação assim, o objetivo passa a ser identificar os temas relevantes para cada um, e em seguida explorá-lo através de uma campanha de comunicação individualizada. A Ciência dos Físicos de Dados permite campanhas contraditórias coexistirem em paz, sem nunca se encontrarem, até o momento do voto.
No novo mundo, portanto, a política é centrífuga. Não se trata mais de unir eleitores em torno do denominador comum, mas, ao contrário, de inflamar as paixões do maior número possível de grupelhos para, em seguida, adicioná-los – mesmo à revelia deles. As inevitáveis contradições contidas nas mensagens enviadas a uns e a outros continuarão, de qualquer forma, invisíveis aos olhos das mídias e do público geral.
O raciocínio vale tanto para as comunidades mais inofensivas, os colecionadores de selos ou os amantes do kitesurf, quanto para as mais perigosas: os fanáticos religiosos e os membros da Ku-Klux-Klan.
Se o movimento convergente da velha política marginalizava os extremistas, a lógica centrífuga da política dos físicos os valoriza. Ela não os põe no centro, porque o centro deixou de existir. Mas ela lhes oferece um espaço e respostas.
Campanha de Populista de Direita: Prioridade na Contrapropaganda publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com

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