
Distingo, conceitualmente, o planejamento sistemático de investimentos financeiros para constituir reservas para manter o padrão de vida durante a aposentadoria, p.ex., seguindo o algoritmo 1-3-6-9-12 (múltiplos de salários anuais a cada dez anos a partir dos 35 anos como reservas), da eventual poupança de sobra de renda, devido à queda do consumo. Esta pode ter sido involuntária, como durante à pandemia quando as lojas físicas fecharam e diminuíram os gastos com vestuário, comida fora de casa e transporte.
Lu Aiko Otta (Valor, 13/10/2020) informa: a poupança das famílias deverá passar de 13,5% de suas rendas para 20,2% neste ano, estimam os economistas José Roberto Afonso e Thiago Abreu. É uma reação à crise provocada pela covid-19. Leva a um comportamento mais conservador ou a mero impedimento físico?
Eles sugerem alterações no ambiente institucional e financeiro das Parcerias Público- Privadas (PPPs) para essa poupança ser canalizada para investimentos, principalmente em infraestrutura. A proposta está no texto “A Poupança Precaucional da covid-19: o Desafio de seu Aproveitamento”, a ser publicado na revista Conjuntura Econômica, do Ibre/FGV.
Em momentos de crise, dizem os economistas, é comum as famílias optarem por gastar menos, fazendo a chamada poupança precaucional. Na pandemia do coronavírus, esse comportamento foi exacerbado por causa das medidas de isolamento e afastamento social. Mesmo não tendo optado por poupar mais, as pessoas se viram impedidas de gastar em áreas como entretenimento e turismo.
“A pandemia mudou a forma de consumo das famílias”, comenta Abreu. O resultado é que mais recursos foram guardados. “No mundo inteiro, a poupança das famílias alcançou números impressionantemente altos”, afirma Afonso, que é professor no Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP).
Dados do Banco Central (BC) apontam para um ingresso líquido de R$ 37,2 bilhões em recursos na caderneta apenas no mês de maio. Em setembro, houve captação de outros R$ 13,2 bilhões, e o estoque superou pela primeira vez na história a marca de R$ 1 trilhão.
O crescimento do número de investidores em bolsa é outro sinal de aumento no número de poupadores. O texto cita dados da B3 pelos quais o número de CPFs inscritos para investir passou de 1,7 milhão em 2019 para 2,9 milhões em 2020.
Afonso e Abreu estimaram a taxa de poupança das famílias calculando a diferença entre renda e consumo. No caso, tomaram o dado mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para a renda disponível bruta das famílias, de 2017, e estimaram os valores para os anos seguintes conforme a variação do Produto Interno Bruto (PIB). E confrontaram esses números com os de consumo, também calculados pelo IBGE.
Assim, em um cenário com recuo do PIB em 5,4% e o consumo das famílias, 7,2%, o aumento da taxa de poupança chegará a 6,7 pontos percentuais da renda familiar, atingindo 20,2% do total em 2020, ante 13,5% estimados em 2019 e 10,5% observados em 2017.
“O grande desafio macroeconômico é transformar essa poupança em investimento, sobretudo fixo”, comenta Afonso. “E que, com isso, se consiga disparar o processo de criação de renda e emprego.”
Ao longo dos anos 2000, a taxa de investimento girou em torno de 20% do PIB. No entanto, caiu para 14,5% do PIB em 2018. Em quatro trimestres até junho passado, estava em 15,47% do PIB.
Especificamente em infraestrutura, os investimentos têm ficado abaixo de 2% do PIB desde 2001, segundo cálculos de Claudio Frischtak, da consultoria Inter.B, citados pelos economistas. Precisariam ficar em 4,24% do PIB, pelo menos, apenas para evitar a depreciação do capital já existente. Também em termos de infraestrutura, o Brasil anda para trás.
“Cabe construir um novo arranjo institucional e financeiro para compartilhar entre setor privado e público projetos de investimento, a partir de formatos diferenciados de financiamento, implantação e posterior operação”, dizem Afonso e Abreu. Esse ambiente mais propício passa por “condições mais favoráveis e estáveis de crédito de longo prazo, aperfeiçoamento do ambiente regulatório e de licenciamento, além de medidas tributárias urgentes que estimulem o investimento.”
Nesse cenário mais favorável, os bancos poderiam oferecer crédito de longo prazo para as empresas investirem e criar produtos para captar dinheiro das famílias para essa finalidade. Para Afonso, o financiamento sempre careceu de um ambiente favorável e de recursos. O dinheiro existe há muito tempo, falta projeto de investimento público produtivo para arrastar os investimentos privados.
Diferença de Investimento Financeiro Planejado e Poupança Indesejada publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário