quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Um Futuro Mais Humano e Mais Local

Richard Baldwin, autor de “A Revolta dos Globóticos” (2019), afirma: a automação e a globalização substituíram os empregos nos séculos XIX e XX. A criatividade humana sem limites inventou “necessidades” antes não existentes. Por isso, muitos de nós hoje trabalhamos em empregos inimagináveis para Charles Dickens na Londres do século XIX. Imagine o que ele pensaria se você dissesse a ele, naquela época, seus trinetos seriam desenvolvedores da web, treinadores de vida e operadores de drones?

Os empregos foram criados nos setores de serviços, pois eram os setores protegidos da automação e da globalização. O mesmo acontecerá novamente hoje. Os trabalhos aparecerão em setores protegidos. Mas quais tipo de empregos serão esses?

Não podemos saber quais serão os novos empregos, mas, estudando as vantagens competitivas da IA (Inteligência Artificial) ​​e do RI (Inteligência Remota), podemos dizer um pouco sobre como serão os empregos protegidos no futuro. Observando atentamente o que o RI faz bem, fica claro os trabalhos possíveis de sobreviverem à concorrência dos teletrabalhadores serão aqueles exigentes interações cara a cara, isto é, presenciais com empatia.

Os psicólogos estudaram por que as reuniões presenciais são tão diferentes de e-mail, telefone ou Skype. O “segredo” da razão de o tempo real de face a face ser muito mais valioso e complexo é por ter sido baseado em forças evolutivas. Elas moldaram nosso cérebro ao longo de milhões de anos.

Enquanto a digitech está criando substitutos cada vez melhores para “estar lá”, parece, por muitos anos, “estar lá” ainda será importante para alguns tipos de tarefas no local de trabalho. Os trabalhos a sobreviverem e os novos a surgirem envolverão muitas dessas tarefas. A implicação deste ponto é direta. Esses empregos tornarão nossas comunidades mais locais e provavelmente mais urbanas.

Ao estudar o que os robôs treinados em IA como Amélia já podem fazer bem, podemos prever os empregos sobreviventes à competição com a IA e os novos empregos a serem criados são aqueles enfaticamente relacionados às grandes vantagens e/ou virtudes da humanidade. As máquinas não tiveram muito sucesso em adquirir inteligência social, inteligência emocional, criatividade, capacidade de inovação ou capacidade de lidar com situações desconhecidas.

Os especialistas estimam levar cerca de cinquenta anos para a IA atingir o desempenho humano de alto nível em habilidades sociais. Elas são úteis no local de trabalho, como raciocínio social e emocional, coordenação com muitas pessoas, agindo de maneiras emocionalmente apropriadas e ações sociais e emocionais de detecção a respeito do sentimento alheio expresso por múltiplos sinais não necessariamente padronizados. Isso sugere as habilidades mais humanas serão protegidas da competição de IA por muitos anos. A implicação é tão simples quanto profunda. A humanidade será importante na maioria dos empregos do futuro.

Tudo isso, em conjunto, é a razão de Richard Baldwin estar otimista em longo prazo. Ele acredita a economia futura ser mais local e mais humana.

Os setores protegidos do futuro serão aqueles onde as pessoas realmente terão de estar juntas, fazendo coisas pelas quais a humanidade é uma vantagem. Isso significa nossa vida profissional ser preenchida com muito mais cuidado, compartilhamento, compreensão, criação, empatia, inovação e gerenciamento de pessoas na mesma sala.

As pessoas conversarão umas com as outras e não ficarão vendo besteiras em seus celulares?! Oh…

Isso é uma inevitabilidade lógica – tudo o mais será feito pelos globóticos. Inclusive disparar mensagens idiotas ou agressivas aos milhares via uotzap e feicebuque

Embora Baldwin acredite esse final feliz ser para onde a tecnologia digital nos levará, em última análise, não é o lugar certo para começar nossas reflexões sobre as mudanças ainda por vir. O lugar para começar é o passado. A senha para entender o futuro está oculta nas lições da história.

As grandes mudanças por vir envolvem interações insanamente complexas entre forças tecnológicas, econômicas, políticas e sociais. Para colocar alguma ordem nessa complexidade, é útil agrupar as mudanças em uma progressão de quatro etapas – transformação, revolta, reação e resolução –, todas lançadas por uma inovação tecnológica.

“Passo” aqui não é significado em um sentido sequencial. A transformação, a revolta e a reação podem se desenvolver ao mesmo tempo, e a resolução não precisa pôr um fim nisso. Foi assim a maneira acontecida no passado.

Já houve dois grandes impulsos e transformações históricas da tecnologia. A Transformação Globótica será a terceira grande transformação econômica a moldar nossas sociedades nos últimos três séculos.

  1. A primeira, conhecida como a Grande Transformação, mudou as sociedades da agricultura para a industrial e da rural para a urbana. Isso começou no início dos anos 1700.
  2. A segunda, iniciada no início da década de 1970, mudou o foco da indústria para os serviços. Baldwin chama-a de Transformação de Serviços para contrastar com a transformação industrial precedente.
  3. A Transformação Globótica de hoje está focada principalmente no setor de serviços. Ela mudará os trabalhadores para serviços e empregos profissionais atualmente “protegidos” a serem substituídos por telemóveis e robôs de colarinho branco.

Os três impulsos tecnológicos foram lançados de formas muito diferentes. Portanto, tiveram efeitos muito diferentes.

Simplificando demais, a Grande Transformação foi lançada pela Revolução Steam e por toda a mecanização em seguida. Essa tecnologia tirou o uso do cavalo como potência motor. Criou ferramentas melhores para as pessoas trabalharem com as mãos, como Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee apontam em seu livro seminal, publicado em 2014, The Second Machine Age.

Tratava-se principalmente de bens e mudou a produção massiva de produtos agrícolas para produtos manufaturados. O trabalho de escritório ficou mais produtivo, mas principalmente devido aos frutos da industrialização (máquinas de escritório, eletricidade, etc.).

A Transformação de Serviços foi lançada, em 1973, pelo desenvolvimento de computadores em um chip e toda a Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) seguinte. Esse impulso tecnológico levou a economia a uma direção radicalmente diferente, uma vez ela ser radicalmente diferente – Byrnjolsson e McAfee chamam de Segunda Era da Máquina.

As TIC criaram melhores substitutos para pessoas, cujos empregos envolviam tarefas manuais, e melhores ferramentas para pessoas, cujos empregos envolviam tarefas mentais. O resultado foi uma “reviravolta nas habilidades”.

A tecnologia criou empregos para quem trabalhava com a cabeça, mas destruiu empregos para quem trabalhava com as mãos. A desindustrialização resultante devastou comunidades e criou enormes dificuldades sociais e econômicas para trabalhadores de colarinho azul, especialmente, em países omissos em ajudar seus cidadãos a fazer a transição como os EUA e o Reino Unido… e o Brasil.

A Transformação Globótica foi lançada por um terceiro impulso tecnológico – a tecnologia digital. O impulso da digitech é radicalmente diferente da energia a vapor e das TIC, mas de uma maneira mais sutil se comparada à diferença entre vapor e TIC.

Quando os computadores e os circuitos integrados começaram a ser úteis na década de 1970, a automação atravessou uma espécie de “divisão continental”. Existem muitas maneiras de caracterizar essa travessia – uma mudança:

  1. das coisas para os pensamentos,
  2. das mãos para as cabeças,
  3. do manual para o mental,
  4. do vigor para o cérebro e
  5. do tangível para o intangível.

Mas, independentemente de como pensamos, os computadores podem fazer apenas um tipo de pensamento altamente restrito. Na verdade, eles não estavam pensando em nenhum sentido real. Eles estavam apenas seguindo um conjunto explícito de instruções chamado programa de computador. Eles eram estritamente obedientes ao código do computador.

A tecnologia digital levou a computação a uma segunda “divisão continental”. Pense nela como a mudança do pensamento consciente para o inconsciente. Os computadores costumavam ser capazes de pensar de maneira analítica e consciente, pois só sabíamos escrever programas de computador capazes de seguirem esse tipo de pensamento. Os computadores não conseguiam pensar intuitivamente e inconscientemente, porque não entendíamos como os humanos pensam intuitivamente (ainda não o fazemos).

Uma inovação no que é chamado de “aprendizado de máquina” permitiu os computadores ultrapassarem essa limitação. Desde 2016 e 2017, os computadores são tão bons ou melhores em relação aos humanos em algumas tarefas mentais instintivas e inconscientes – coisas como reconhecer a fala, traduzir idiomas e identificar doenças dos raios-X.

O aprendizado de máquina está dando aos computadores – e aos robôs comandados por eles para executarem – novas habilidades valiosas nos escritórios. Agora eles podem imitar o pensamento humano em tarefas envolvendo percepção, mobilidade e reconhecimento de padrões. De um modo geral, o aprendizado de máquina está permitindo os computadores fazerem escolhas “diretas”.

O resultado desse novo tipo de computador pensante é a automação agora estar afetando os trabalhos de escritório, não apenas os de fábrica, como no passado. O mesmo digitech também está facilitando a execução de tarefas em nossos escritórios por trabalhadores estrangeiros. É quase como se esses estrangeiros estivessem na sala falando a mesma língua.

Outra diferença importante entre a transformação de hoje e as duas últimas diz respeito ao tempo.

  • A globalização, durante a Grande Transformação, começou um século após o início da automação.
  • A globalização, durante a Transformação de Serviços, começou duas décadas após a automação.
  • Na Transformação Globótica de hoje, a globalização e a automação estão decolando ao mesmo tempo e avançando em um ritmo explosivo.

A globalização e a automação fizeram coisas maravilhosas para nós, no passado, mas o progresso foi acompanhado pela dor. No futuro, eles farão um pouco dos dois. Alavancar o progresso futuro e aliviar a dor futura não será fácil. Mas revisar as convulsões passadas deve servir para guiar nosso pensamento.

Um Futuro Mais Humano e Mais Local publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com



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