domingo, 29 de dezembro de 2019

Mercado de Capitais Raquítico e… Eufórico (antes do Pânico)

Maria Clara R. M. do Prado, jornalista, é sócia diretora da Cin – Comunicação Inteligente e autora do livro “A Real História do Real”. Publicou (Valor, 10/12/2019) um artigo destoando do coro dos contentes com a bolha no mercado de ações brasileiro.

“O ano de 2019 entrará para a história monetária do país como aquele em que a taxa básica de juros caminhou para níveis compatíveis com o ritmo de queda da inflação em uma economia cujo crescimento, em torno de 1% ao ano, ainda denota frágeis sinais de recuperação.

O Copom (Comitê de Política Monetária) definiu o nível da taxa Selic em 4,5% ao ano em uma conjuntura de ligeira retomada da inflação. Ela pode fechar dezembro com taxa anual acumulada entre 3,8% e 4%, segundo os últimos prognósticos coletados pelo boletim Focus do Banco Central. Nesse caso, o juro real (diferença entre a taxa nominal e a inflação) se reduzirá ainda mais significativamente, estreitando a “gordura” dos rendimentos para quem há décadas se sentia bem remunerado nos fundos DI, cuja taxa se aproxima da Selic.

Para o investidor aflito, a opção natural é o mercado de capitais, mas dificilmente vai encontrar ali as condições necessárias de liquidez e de oportunidades para a remuneração do seu capital, por mais eufóricos que estejam os representantes da B3- bolsa de valores.

Não há dúvida de que alguns indicadores têm melhorado este ano com o aumento das ofertas de ações e maior interesse dos investidores pessoas físicas, mas os números estão longe de representar robustez em um segmento que se sustenta em uma demanda concentrada nos investidores estrangeiros e nos fundos de investimento administrados pelos bancos.

As emissões primárias continuam rarefeitas e as ofertas do mercado secundário não apresentam grandes avanços. O aumento ocorrido neste segmento reflete em boa parte a menor atuação do BNDES como provedor de financiamento para expansões e novos empreendimentos empresariais. O acionista da empresa vê-se forçado a desfazer-se de parte de sua posição acionária para captar recursos no mercado. As ações trocam de mão e ajudam a movimentar o mercado, mas isso não amplia o número de empresas registradas na bolsa.

De fato, o número de 328 empresas listadas na B3 em 2019 até aqui tem se mantido praticamente no mesmo nível nos últimos anos, pouco abaixo, pouco acima, longe das 369 registradas em 2008. Isto, por si, não chega a ser nada de extraordinário quando comparado com os mercados dos países mais desenvolvidos. Além disso, a bolsa brasileira caracteriza-se por uma enorme volatilidade das companhias cadastradas.

Entre 2005 e 2019, até o dia 28 de novembro, uma boa quantidade de empresas saiu da bolsa. O total chegou a 302 no período, sendo que 88 desapareceram por operações societárias (fusões e incorporações) e as demais 214 sumiram por cancelamento do registro pela bolsa ou por decisão dos próprios dirigentes. Todos esses dados estão compilados no estudo “Perplexidades do mercado de valores mobiliários”, desenvolvido pelo ex-presidente da CVM e fundador da Escola de Direito da GV São Paulo, Ary Oswaldo Mattos Filho, em parceria com Renato Vilela: Apresentação do Mercado de Capitais.

O retrato é dramático. Mostra um mercado concentrado, com as emissões direcionadas a grandes investidores, e de baixíssima liquidez para as pessoas físicas em busca de alternativas.

Ressalte-se o grande volume de negociações estar concentrado em 14 grandes emissores, detentores de 52% do mercado, sendo que apenas duas empresas – a Petrobras e a Vale do Rio Doce – respondem por 24% do total negociado, conforme destaca o estudo, indicando também a alta concentração em termos do valor negociado por empresa. Do total de R$ 23 bilhões negociados na B3 entre janeiro de 2005 e outubro de 2019, apenas 0,25% daquele montante envolveu o valor emitido por 732 empresas. Apenas 18 emissores mobilizaram mais de 1% do total dos recursos movimentados naquele período, segundo o levantamento do estudo.

Na ponta dos subscritores, a participação entre 2005 e 2008 foi dominada por dois grandes tipos de investidores. Os estrangeiros responderam por 44% das subscrições em valor das ações oferecidas via Instrução CVM 400 e 55% das ofertas via Instrução CVM 476. Já os fundos de investimento vinculados às instituições bancárias subscreveram no período 27% do valor ofertado via ICVM 476 e 16% das ações oferecidas ao mercado através da ICVM 400. A diferença básica entre uma e outra é que a ICVM 400, mais rígida nas regras de transparência, abre a oferta para qualquer nível de investidor, enquanto que a ICVM, mais frouxa nas regras, limita a subscrição a investidores com mais de R$ 10 milhões em investimentos.

O mercado de capitais no Brasil é uma farsa”, atesta Ary Oswaldo, chamando atenção para uma “estrutura montada para grandes empresas, com grandes emissões e grandes colocações por poucos grandes bancos para grandes subscrições”. Em termos de liquidez, lembra ele, não é por acaso que as grandes empresas brasileiras optam por colocar suas ações no exterior, via ADR, onde o giro é substancialmente mais elevado do que no mercado interno.

A ampliação do registro de investidores pessoas físicas na B3 este ano é sem dúvida um sinal positivo. Aponta-se em um milhão e 600 mil o número de pessoas físicas cadastradas este ano, dos quais 777 mil começaram a operar na bolsa, mas esse universo ainda é extremamente pequeno em termos de valor. O estudo de Ary Oswaldo mostra que apesar da pessoa física ter sido responsável por 91% da quantidade de subscrições das ofertas pela ICVM 400 até 2018, o valor movimentado por aqueles investidores não passou de 7% do total no período.

A concentração também é visível entre as empresas que coordenam as operações de oferta. Entre 2005 e 2008, conforme mostra o estudo, apenas três bancos – Pactual, Itau BBA e Credit Suisse – foram responsáveis pela intermediação de 150 operações de lançamento do total de 212, considerando as ofertas registradas pela ICVM 400. Quanto ao valor por líder nas colocações, aquelas três instituições detiveram 75% do total intermediado entre 2005 e outubro de 2019.

Para Ary Oswaldo, a solução passa necessariamente pela desconcentração do mercado de capitais com a criação de bolsas de valores regionais, com mais estímulos para as negociações eletrônicas e menor burocracia para as ofertas via ICVM 400. Em época de juros baixos, outros arranjos são necessários para que os investidores possam efetivamente contar com novas possibilidades de investimento.”

Marcelle Gutierrez (Valor, 09/12/2019) avalia: beneficiar o acionista é o propósito de todo negócio de fusão e aquisição, mas nem sempre isso acontece. Diante de uma oportunidade muitas vezes inesperada, empresas aproveitam a chance e não se preparam adequadamente para o movimento estratégico, que pode fracassar ou não ter o desempenho esperado.

No caso do vendedor, a falta de preparo pode resultar em um preço abaixo do ideal ou afetar negócios remanescentes.

Pesquisa global da PwC obtida com exclusividade pelo Valor revela que 61% dos compradores de ativos acreditavam que sua última operação criou valor. No entanto, 53% tiveram desempenho inferior aos seus concorrentes, em média, nos 24 meses seguintes à conclusão do último acordo, com base no indicador de retorno total aos acionistas (TSR, na sigla em inglês).

Na outra ponta, dos vendedores, 57% das companhias apresentaram desempenho menor do que seus pares no setor, em média, nos 24 meses posteriores ao negócio de comercialização de um ativo, ou seja, de uma unidade, fábrica, ou fatia da companhia, por exemplo.

No Brasil, a situação é ainda mais delicada do que nos Estados Unidos e na Europa. “O planejamento de aquisições é menos profissional e detalhista do que em países desenvolvidos”, diz Leonardo Dell’Oso, sócio da PwC Brasil. Segundo ele, muitas transações ocorrem sem a contratação de assessores ou de processos de verificação dos números, ativos e que identificam as sinergias. “As empresas brasileiras têm preparação menor do que as americanas e europeias.”

Dell’Oso detalha que todo negócio de fusão ou aquisição visa fazer o crescimento ou proteger o negócio, que se traduz em valor ao acionista. “Toda transação tem um único propósito final que é gerar valor ao acionista, escondido em outras razões, como entrar em novo mercado, eliminar concorrente, aproveitar uma tecnologia nova, entre outras.”

O relatório da PwC foi elaborado com base em entrevistas com 600 executivos de alto escalão de diversos setores e regiões geográficas e incluiu transações anunciadas entre janeiro de 2008 e 31 de dezembro de 2016, com seu posterior desempenho medido pelo indicador TSR até 24 meses depois, sendo o último medido em 30 de junho de 2018.

Dell’Oso explica que a principal razão para o benefício ao acionista menor do que o esperado é a falta de preparo, principalmente porque na maioria dos casos são transações oportunistas. “Muitas vezes, a empresa não está procurando outra para comprar, mas apareceu e faz sem preparação, definição estratégica ou sem programa de integração. Sem um planejamento, a operação tende a fracassar.”

A maior parte dessas transações com desempenho aquém do esperado ocorre na primeira compra, sendo que nas aquisições seguintes a preocupação é diferente. “A grande quantidade é transação única, de quem nunca comprou ninguém. Aquelas empresas que já passaram por uma experiência fracassada, têm uma preocupação diferente em uma próxima aquisição. Quem faz com certa regularidade é a exceção à regra.”

Na ponta dos vendedores, o fracasso ocorre, de acordo com Dell’Oso, porque a companhia não quer ter um custo adicional para preparar a saída de um ativo que já não produz a rentabilidade adequada. O resultado é a venda por um preço baixo, impacto em outros negócios que continuarão na companhia, perdas tributárias, entre outros. É preciso preparar o ativo para a venda, diz, porque “não preparar custa mais caro”.

Os 600 executivos entrevistados estão distribuídos igualmente por seis setores: energia, concessões públicas, mineradoras e infraestrutura; serviços financeiros; serviços de saúde e farmacêuticas; produtos industriais e serviços corporativos; varejo, consumo e lazer; e tecnologia, mídia e telecomunicações.

Na divisão por regiões, 240 dos empresários estão localizados nas Américas, 240 na região que abrange Europa, Oriente Médio e África (Emea) e 120 na Ásia-Pacífico (Apac).

O líder da área de fusão e aquisição e sócio da PwC Brasil explica que não há uma diferença de geração de valor ou desempenho por segmento. O que ocorre são companhias de tecnologia, por exemplo, que se dedicam mais à preparação tecnológica e acabam tendo problemas menores, como na integração. “A variação ocorre entre empresas grandes e pequenas, porque as grandes têm mais recursos para investir em serviços, mapear, capturar e identificar valor, enquanto as pequenas têm menos condições e investem menos”, completa.

Outro exemplo de euforia, também devido à fuga de investidores da renda fixa para a renda variável e/ou imobiliária, está, conforme informa Sérgio Tauhata (Valor, 10/12/2019), no ano de 2019, no segmento de Fundos de Investimentos Imobiliários (FII). Esta aplicação combina a distribuição de dividendos com a possibilidade de ganho com a variação das cotas em bolsa. No pano de fundo, está o juro na mínima histórica. Isto tem levado cada vez mais investidores a assumir riscos e a buscar diversificação nessa classe de ativos. Além disso, o aquecimento do mercado imobiliário é favorável ao setor, alimentando expectativas de ganhos.

O volume de novas emissões é o maior da história, com R$ 32,5 bilhões captados até novembro, segundo a Anbima. A cifra inclui fundos listados e aqueles não negociados em bolsa. Esse valor é mais que o dobro do recorde anterior, de R$ 16,1 bilhões em 2011, ou ainda dos R$ 15,6 bilhões de todo o período de 2018. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tem mais R$ 2,9 bilhões de 13 ofertas em análise. Caso se concretizem, 2019 tem potencial para fechar com total de R$ 35,4 bilhões em emissões.

A liquidez do mercado secundário também aumentou exponencialmente neste ano. Em relação a janeiro, os dados da B3 mostram que os fundos listados negociaram volume financeiro quatro vezes maior em outubro. O giro mensal saiu de R$ 1 bilhão para R$ 4 bilhões no período. No ano, o volume negociado alcançou R$ 21 bilhões. Em dez meses, o fluxo também quase dobrou, com aumento de 94,64% em relação ao visto em todo o ano passado, segundo a B3.

O patrimônio líquido dos 200 fundos listados em bolsa alcançou R$ 74,4 bilhões em outubro, com alta de 35,8% no ano. Em apenas um mês, entre setembro e outubro, os ativos dos fundos cresceram 11%. Em valor de mercado, no acumulado do ano até outubro, essas carteiras registraram aumento também de 35,8%, a R$ 75,5 bilhões – em relação a setembro, quando o segmento chegou ao topo histórico de R$ 78,4 bilhões, o valor representa pequeno recuo.

Outro destaque, a quantidade de investidores em fundos listados apresentou um salto. Boletim da B3 de outubro mostra, em dez meses, o número ter saído de 230 mil para 517 mil, ou seja, mais do que dobrou. A base de investidores ganhou cerca de 32 mil novos cotistas por mês na média de 2019 até outubro.

No ritmo atual, a barreira psicológica de 1 milhão de investidores do segmento na B3 seria alcançada no primeiro trimestre de 2021. Mas vários gestores apostam que a marca já será atingida no ano que vem. “Em dois anos a quantidade de investidores se multiplicou por cinco, então acho que a gente vai chegar a 1 milhão nos FII já em 2020”, afirma Ricardo Almendra, CEO da RBR Asset. E o cara fica contente com esse comportamento de manada gerador de profecia autorrealizadora ou bolha de ativos!

“Acredito que em 2020 vamos chegar a 1 milhão de investidores, tem muita gente ingressando no mercado”, diz outro especulador, sócio da Hectare Capital. A mesma opinião é compartilhada pelo CEO da Integral Brei. “A marca de 1 milhão de investidores de FII na bolsa vamos ver já no segundo trimestre de 2020”, afirma.

A casta dos mercadores-financistas não se emenda… Ganha vendendo ilusões para jovens incautos.

Mercado de Capitais Raquítico e… Eufórico (antes do Pânico) publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com



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