sábado, 16 de novembro de 2019

Parasita

Esta resenha escrita por Pedro Butcher (Valor 08/11/2019) contém spoiler. Porém, eu a reproduzo abaixo para quem já assistiu o inusual filme — mistura de gêneros com comentários sociais críticos — e como recomendação de assistir para quem ainda não teve a oportunidade de assisti-lo.

“Vivemos um tempo de extremos, não muito apropriado às sutilezas. Se polarizações demandam paciência para manter a sanidade, exigem, também, um posicionamento. É preciso saber de que lado se está.

Um ambiente assim representa um desafio especial para quem trabalha com cinema. Não deixa de ser extremamente significativo que, em 2019, o circuito comercial tenha recebido três filmes com respostas à altura para os desafios de tempos extremos: o brasileiro “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles; o americano “Coringa”, de Todd Philips, e, agora, o coreano “Parasita”, de Bong Joon-ho.

São trabalhos que não podem ser propriamente chamados de sutis, mas que, dentro de um quadro que exige uma tomada de posição evidente, as sutilezas se fazem ver de outras maneiras.

“Bacurau”, “Coringa” e “Parasita” são “diretos” e “simples” no que querem dizer e, ao mesmo tempo, complexos em suas estruturas. Em alguns momentos, chegam a causar espanto detalhes que os filmes trazem em comum, como certos traços de comportamento de personagens, a importância que os objetos ganham na narrativa, o uso pontual da música e, no caso dos filmes brasileiro e coreano, as referências aos EUA. Todos são também atualíssimos, mas recorrendo a um fazer cinematográfico que remete a outra época (os anos 70, em especial).

O mais forte elo entre os filmes é uma visão política que aborda, de maneiras distintas, a luta de classes. Em “Parasita”, tudo começa quando o jovem filho de uma família pobre consegue trabalho como professor particular de uma jovem filha de família rica. A família pobre, cujos pais estão desempregados e os filhos estão fora da universidade por falta de dinheiro, aos poucos passa a fazer parte do corpo de empregados da família rica.

A geografia da cidade de Seul, com seus altos e baixos, ajuda a desenhar a separação de classes na sociedade coreana: a família pobre mora na parte baixa da cidade, em um apartamento abaixo do nível da rua, com uma janela que dá para a calçada; a família rica mora em uma imensa casa protegida por muros, no alto de uma ladeira.

Tudo começa como uma comédia ligeira, familiar. É um momento particularmente feliz do roteiro assinado por Bong Joon-ho e Han Jin Won, que apresenta trama e personagens por meio de situações pontuadas pela graça e por uma ironia fina, ao mesmo tempo definindo claramente os limites para barrar a instalação de possíveis cinismos. Aos poucos, o tom muda. “Parasita” vai da comédia ao suspense e ganha tensão até se transformar mais uma vez, agora perto dos momentos finais.

Bong Joon-ho retoma o desejo de comentário social que marcou seus curtas (exibidos em sessão especial no último Festival Internacional de Curtas de São Paulo) e que também está presente em seu longa, “Memories of Murder” (2003). Neste, a carpintaria de roteiro e a habilidade de direção já apontavam um nome a se prestar atenção.

Parasita”, no entanto, vai bem mais longe. Depois de duas experiências internacionais faladas em inglês (“Expresso do Amanhã”, de 2013, e “Okja”, de 2017), com resultados frustrantes, o diretor voltou para casa com um olhar mais preciso e afiado.

Como em “Bacurau” e “Coringa”, o mal-estar se instala e se expande. Os três filmes procuram formas concretas de representar o desprezo e a indiferença com os quais são tratados os mais pobres e em posição social vulnerável (alguns exemplos: os remédios vencidos de “Bacurau”; a humilhação pública de Arthur Fleck pelo colega profissional em “Coringa”; o cheiro em “Parasita”).

Nos três filmes, a opressão cumulativa, fruto em parte de uma desigualdade econômica crescente, sugere um caminho inevitável para uma explosão de fúria.

Parasita” ainda traz consigo a força de chamar atenção mundial para o cinema feito na Coreia do Sul: em maio passado, levou a Palma de Ouro no último Festival de Cannes, e tem fortes chances de conseguir indicações ao Oscar. Na Coreia, ainda se confirmou um imenso sucesso de bilheteria, com mais de US$ 70 milhões de arrecadação, contribuindo para mitigar um pouco a polarização entre as duas pontas que marcam o mercado de cinema hoje: os grandes “blockbusters” e os filmes pequenos, “de arte”.

“Parasita”
Coreia do Sul, 2019. Direção: Bong Joon-ho. Distribuidora: Pandora. Em cartaz AA+

PS:

Uma família de empregados aproveita a ausência dos patrões para desfrutar da vida dos ricos na mansão onde trabalham. Enquanto apreciam as camas macias, o uísque importado ou a banheira de hidromassagem, alguém toca a campainha da casa. O momento é crucial na narrativa de “Parasita”, vencedor da Palma de Ouro do

Festival de Cannes deste ano, por representar um reajuste de rota, ao conduzir a comédia de humor negro ao terreno do thriller com elementos de horror.

Experimentar gêneros (de preferência, misturando-os) é uma especialidade do sul-coreano Bong Joon-ho. Nessa poderosa sátira social ambientada em Seul, o cineasta presta homenagem aos filmes de gênero fazendo o que mais gosta: subverter as convenções. “Ao mesmo tempo em que gostaria de seguir as regras, quero destruí-las. É da colisão dos dois sentimentos que o filme nasce e se desenvolve”, diz o diretor de 50 anos.

Mundialmente, “Parasita” já arrecadou mais de US$ 93 milhões. Na França, é a Palma mais bem-sucedida dos últimos 15 anos

É por isso que o espectador não consegue antecipar os desdobramentos na trama que chega aos cinemas brasileiros no dia 7, depois de passagem pela 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Só por fugir da previsibilidade, algo que a maioria dos filmes parece não conseguir fazer, Bong já tem crédito.

“Não penso muito em como misturar os elementos antecipadamente. Sigo o meu instinto, sem calcular tudo em detalhes”, diz o cineasta, comparando o que faz no set de filmagem ao ato de “preparar uma sopa sem seguir uma receita específica”.

“Enquanto a água ferve, vou acrescentando os ingredientes que podem cair bem. Ou seja, coloco o foco na situação que se apresenta, deixando aquele momento fluir na cena, independentemente de aquilo significar uma mudança brusca de gênero e de clima para o filme.”

Até o presidente do júri de Cannes, o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu, justificou a entrega da Palma a “Parasita” pelo modo inesperado com que o filme transita por gêneros para tratar de um assunto relevante – a desigualdade social. Foi a primeira conquista de uma Palma de Ouro pelo cinema da Coreia do Sul.

Parasita publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com



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