domingo, 24 de novembro de 2019

O sonho acabou, quem não dormiu no sleeping-bag sequer sonhou…

Binyamin Appelbaum, autor de “Hora dos Economistas” [The Economists’ Hour: How the False Prophets of Free Markets Fractured Our Society], publicado em 2019, afirma: os economistas começaram a entrar em serviços governamentais em grande número durante o New Deal e a Segunda Guerra Mundial. Eles ajudaram a calcular onde estradas e pontes deveriam ser construídas e, em seguida, ajudaram a calcular quais estradas e pontes deveriam ser destruídas.

Enquanto os formuladores de políticas e os burocratas lutavam para gerenciar a rápida expansão do governo federal, eles começaram a contar com economistas para racionalizar a administração das políticas públicas. Gradualmente, os economistas também começaram a exercer influência sobre os objetivos das políticas públicas.

Os discípulos de Keynes começaram a convencer os formuladores de políticas de o governo poder aumentar a prosperidade, desempenhando um papel maior na economia. O apogeu dessa “economia ativista” nos Estados Unidos ocorreu em meados da década de 1960 sob os presidentes John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson. Eles implementaram cortes de impostos e aumentos de gastos em um esforço agressivo para estimular o crescimento econômico e reduzir a pobreza.

Por alguns anos, o efeito pareceu quase mágico. Então o desemprego e a inflação começaram a subir juntos. No início da década de 1970, a economia americana estava vacilando – e o Japão e a Alemanha Ocidental estavam ressurgindo. “Não podemos competir na fabricação de carros, na fabricação de aço ou em aviões”, disse o presidente Nixon. “Então, vamos acabar fazendo papel higiênico e pasta de dente?”

Nixon e seus sucessores, Gerald Ford e Jimmy Carter, continuaram testando as prescrições intervencionistas dos keynesianos até alguns dos keynesianos levantarem as mãos ao alto perante os monetaristas. Estes assaltaram, primeiro, a mídia, depois, o Estado nacional via eleição de Ronald Reagan.

Os economistas líderes da contra-revolução contra a economia keynesiana marcharam sob a bandeira “Nos mercados em que confiamos” [“In Markets We Trust.”]. No final da década de 1960, começaram a convencer os formuladores de políticas de o livre movimento de preços em uma economia de mercado proporcionar melhores resultados se comparada aos burocratas. Eles acusaram os defensores da economia ativista de exagerarem a influência do governo e sua própria competência. Eles disseram: gerenciar o capitalismo para melhorar a vida na Terra acabou piorando as coisas.

Exigia certa arrogância para anunciar uma maneira melhor de fazer tudo, mas havia também um elemento marcante de modéstia. Os novos economistas não estavam afirmando ter as respostas. Na verdade, eles estavam alegando não ter as respostas.

Eles afirmaram: os formuladores de políticas deveriam sair do caminho em vez de tentar fazer boas escolhas. Os governos devem minimizar gastos e impostos, limitar a regulamentação e permitir os bens e dinheiro circularem livremente através das fronteiras.

Onde a política era necessária, por exemplo, na alocação do custo da poluição, os governos deveriam aproximar o funcionamento de um mercado com toda a fidelidade possível. “Se for viável estabelecer um mercado para implementar uma política, nenhum formulador de políticas pode se dar ao luxo de ficar sem uma”, dizia um representante do conservadorismo neoliberal.

A Economia se tornou uma religião de afirmação. As religiões anteriores tinham uma visão sombria da riqueza, porque era geralmente assumido o prazer de uma pessoa se dar às custas da dor de outras. Isso era verdade em um mundo onde a produtividade mal aumentava com o tempo: o sistema medieval de guildas limitava a entrada em artesanato, porque havia apenas uma demanda por pão.

Mas Adam Smith reconheceu a revolução industrial ter alterado essa realidade. À medida que a produtividade aumentava, a riqueza poderia ser acumulada aumentando o tamanho da economia. Ser egoísta poderia ser bom para todos. Vale ressaltar: Smith não achava o egoísmo sempre ser bom para a sociedade. Mas a Economia tem aproximadamente a mesma relação com seus textos fundadores se comparada às outras grandes religiões do mundo. A contabilidade diferenciada de Smith tornou-se “A ganância é boa virtude”. Provou ser um credo de conquista mundial, entre os ricos e quem aspira a se juntar a eles.

Os defensores da fé nos mercados também desenvolveram um relacionamento próximo com a elite corporativa. Esta não era tão inevitável quanto pode parecer em retrospecto. Economistas conservadores como Friedman e seu amigo próximo George Stigler inicialmente expressaram medo do poder corporativo e argumentaram: restringir a concentração corporativa era uma das poucas funções legítimas do governo.

Alguns economistas conservadores ainda o fazem. Mas muitos decidiram fazer uma causa comum com as corporações contra o poder do governo. Os economistas forneceram ideias e as empresas forneceram dinheiro: pesquisa de subscrição, doações de cadeiras de universidades e grupos de reflexão como o National Bureau of Economic Research, o American Enterprise Institute e o Hoover Institution da Stanford University.

Em um célebre artigo de 1972, os economistas da UCLA, Armen Alchian e Harold Demsetz, descreveram as empresas como a apoteose do capitalismo – o melhor mecanismo possível para garantir as pessoas serem empregadas com eficiência e com remuneração justa. Uma nota de rodapé dizia aos leitores: os autores haviam chegado a essas conclusões com financiamento da gigante farmacêutica Eli Lilly. Os executivos corporativos e outros americanos ricos estavam muito satisfeitos por ver suas crenças e interesses expressos como verdades científicas!

O sonho acabou, quem não dormiu no sleeping-bag sequer sonhou… publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com



Nenhum comentário:

Postar um comentário