quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Destruição do BNDESPAR para Ganhos no Mercado de Capitais

Maria Luíza Filgueiras (Valor, 04/11/2019) anuncia: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), presidido por Gustavo Montezano, quer extinguir sua carteira de participações acionárias em três anos, zerando os quase R$ 120 bilhões geridos hoje pela subsidiária BNDESPar. 

A proposta da nova administração não é eliminar a subsidiária, mas alterar substancialmente seu modelo de investimentos – com maior atuação com capital semente (“seed money”) e via fundos de investimento, por exemplo, reduzindo consideravelmente o risco financeiro diário da instituição.

A proposta é um pouco mais ambiciosa do que o governo vinha falando até agora. Não se tratava apenas de redução das grandes posições em ações. No modelo atual, o banco é um hedge fund, diz uma fonte graduada ligada à instituição, referindo-se ao fato de a carteira de ações ser superior ao patrimônio do banco. Em três anos, a carteira tem de estar mais próxima de zero possível, fazendo com que o resultado do banco de fomento seja monótono, previsível, e não especulativo.

Detalhe: vender o estoque de ações é “once-for-all”, ou seja, de uma vez por todas. Dá lucro de imediato e depois o Tesouro Nacional não mais receberá os dividendos acostumados a receber do BNDES. Confira nos quadros acima.

O Conselho de Administração da BNDESPar vai avaliar propostas da Diretoria Executiva para alterar normativos referentes a essa atuação e ao processo de venda de participações. Na medida de avaliação de risco VaR (value at risk), que está em torno de 5% do patrimônio líquido da subsidiária, o banco de fomento pode perder até R$ 5,6 bilhões em variações diárias e quer reduzir isso para R$ 600 milhões no prazo de três anos. Mas, se os desinvestimentos acontecerem conforme os planos, é possível que o banco chegue ao fim de 2022 com menos do que isso como carteira total.

Para se ter uma ideia, o VaR médio diário consolidado do Itaú Unibanco não chega a R$ 400 milhões. Já o do BTG Pactual, que era considerado um pouco mais agressivo que bancos de varejo, é de R$ 147 milhões, cerca de 0,7% do patrimônio líquido médio.

Também serão submetidos ao Conselho ajustes em normativos sobre metodologias para definição de preço justo dos ativos à venda. Atualmente isso é feito pelo método de fluxo de caixa descontado, considerando apenas um cenário – o que já trouxe contestação do Tribunal de Contas da União (TCU) em alguns casos.

A atual administração considera esse modelo questionável, por ser muito suscetível ao cenário futuro traçado em planilhas pelos analistas. A proposta é incluir outras metodologias, como o valor de tela das ações (usada por outros bancos públicos, como Caixa e Banco do Brasil) ou ao menos incluir novos cenários na projeção por fluxo de caixa – conservador, moderado e agressivo – para ter uma faixa de preços.

O banco quer fazer ainda este ano uma grande venda de ações, com uma oferta (follow-on) de uma de suas oito maiores posições em carteira. Uma fonte com conhecimento do assunto diz: o banco considera a janela de mercado para sair como uma oferta até 20 de dezembro – para isso, a operação precisaria estar de pé até 18 de novembro. Na prática, portanto, são menos de três semanas para ter esses ajustes aprovados no Conselho e já dar prosseguimento à estruturação de um desinvestimento. “É um desafio para o ritmo de andamento de processos no banco”, diz um executivo do mercado financeiro.

O banco ainda discute o prazo ideal para essas vendas, porque algumas companhias negociam em seus patamares mais altos historicamente, mas têm eventos à frente que podem fazê-las valorizar mais – caso do leilão de cessão onerosa para a Petrobras, da listagem nos Estados Unidos para a JBS e da privatização para a Eletrobras.

Conforme sinalizado nas discussões da atual administração do banco, o BNDES não vai participar de operações societárias para resgatar companhias em dificuldade financeira – como já fez no passado com produtoras de leite e frigoríficos, nas gestões dos governos petistas. “A administração atual considera isso alquimia financeira para salvar empresas que tomaram decisões estratégicas erradas”, afirma outra fonte.

Idealmente, a participação do banco se dará por crédito e por participações por meio de fundos de investimento, onde o banco é um dos cotistas. Nesse caso, estará fazendo coinvestimento com investidores privados, e terá um gestor especializado à frente das decisões de aporte. “Pode haver eventualmente investimento acionário direto quando for alguma atividade inovadora, que desenvolva um setor ou que traga benefício social, ou ainda que tenha algum fundamento de desestatização, em que o banco participa de forma temporária para ajudar no processo de desestatização como fez no passado”, explica um executivo próximo às conversas.

Os aportes em fundos darão prioridade às inovações – aplicando em startups, soluções de tecnologia, dívida para pequenas empresas – e carências setoriais para desenvolvimento nacional, como fundos de infraestrutura.

Destruição do BNDESPAR para Ganhos no Mercado de Capitais publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com



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