Yuval Noah Harari, no livro “Homo Deus: Uma breve história do amanhã” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015), lembra: a Declaração Universal dos Direitos do Homem, adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU) após a Segunda Guerra Mundial — e que talvez seja o que há de mais próximo que temos de uma Constituição global —, declara categoricamente que o “direito à vida” é o valor fundamental da humanidade. Por se constituir em uma clara violação desse direito, a morte é um crime contra a humanidade, e temos de travar uma guerra total contra ela.
Durante a História, religiões e ideologias não santificaram a vida em si mesma. Santificaram sempre algo que está acima ou além da existência terrena, e consequentemente foram bem tolerantes com a morte. De fato, algumas delas mostraram-se bastante afeiçoadas ao Anjo da Morte.
Uma vez que o cristianismo, o islamismo e o hinduísmo insistiam que o significado de nossa existência dependia da sina no pós-vida, elas consideravam a morte como parte vital e positiva do mundo. Humanos morriam porque Deus assim decretava, e o momento de sua morte era uma experiência metafísica sagrada e repleta de significado.
Quando um humano estava próximo de seu derradeiro suspiro, era hora de convocar sacerdotes, rabinos e xamãs, fazer o balanço de sua vida e assumir seu verdadeiro papel no universo. Tente imaginar o cristianismo, o islamismo ou o hinduísmo em um mundo sem mortes — o que seria também um mundo sem céu, inferno ou reencarnação.
[Por isso, os cristãos fundamentalistas pregam contra o aborto e a eutanásia. Para eles só um ente sobrenatural pode decretar a morte de um animal humano. O ser humano não teria liberdade de dispor do próprio corpo! Não teria, portanto, o direito à vida como lhe aprouver, ou seja, ao livre-arbítrio sobre si!]
A ciência e a cultura modernas têm uma visão totalmente diferente da vida e da morte. Não pensam nesta última como um mistério metafísico. Certamente, não a veem como a fonte do sentido da vida. Na verdade, para pessoas modernas, a morte é um problema técnico que pode e deve ser resolvido.
Como, exatamente, morrem os humanos? Os animais da espécie “humanos” não morrem porque uma figura envolta em um manto negro bate em seu ombro, ou porque Deus assim decretou, ou porque a mortalidade é parte essencial de algum grande plano cósmico.
Humanos morrem devido a alguma falha técnica. O coração para de bombear sangue. A artéria principal entope com depósitos de gordura. Células cancerosas espalham-se no fígado. Germes multiplicam-se nos pulmões.
De quem é a responsabilidade por todas essas falhas técnicas? Outros problemas técnicos. O coração para de bombear o sangue porque não chega bastante oxigênio ao músculo cardíaco. Células cancerosas se espalham porque uma mutação genética acidental reescreve suas instruções. Germes se instalaram nos meus pulmões porque alguém espirrou no metrô. Nada metafísico. Somente problemas técnicos.
E todo problema técnico tem uma solução técnica. Não é preciso esperar pela volta de Cristo à Terra para superar a morte. Alguns nerds num laboratório podem fazer isso. Se a morte era tradicionalmente a especialidade de sacerdotes e teólogos, hoje são os engenheiros que estão assumindo o caso. As células cancerosas podem ser mortas por meio de quimioterapia ou por nanorrobôs. Os germes nos pulmões podem ser extintos com o uso de antibióticos. Se o coração parar de bater, é possível fortificá-lo com medicamentos e choques elétricos — e, se isso não funcionar, pode-se realizar o implante de um coração novo.
É verdade que no momento não dispomos de solução para todos os problemas técnicos. Mas é exatamente por causa disso que investimos tanto tempo e dinheiro em pesquisas sobre o câncer, germes, a genética e a nanotecnologia.
Mesmo os leigos, que não estão envolvidos em pesquisas científicas, acostumaram-se a pensar na morte como um problema técnico. É generalizada a percepção de que uma gripe, a tuberculose e o câncer são problemas técnicos, para os quais algum dia poderemos encontrar a solução técnica.
Mesmo quando pessoas morrem em um furacão, um acidente de carro ou em uma guerra, tendemos a tratar esse evento como uma falha técnica. Poderia e deveria ter sido evitada. Se o governo tivesse adotado uma política melhor; se a municipalidade tivesse feito adequadamente seu trabalho; se o comandante militar tivesse tomado uma decisão mais sensata, a morte poderia ter sido evitada. A morte tornou-se um motivo quase automático para processos legais e investigações.
A grande maioria dos cientistas, médicos e estudiosos ainda se distancia de sonhos explícitos com a imortalidade com a alegação de que estão tentando superar este ou aquele problema específico. No entanto, como a velhice e a morte são o resultado de problemas específicos, e nada além disso, não existe um ponto no qual médicos e cientistas irão se deter.
Consequentemente, uma minoria crescente de cientistas e pensadores está falando mais abertamente sobre o assunto hoje em dia. Declara a principal empreitada da ciência moderna ser derrotar a morte e garantir aos humanos a juventude eterna.
O desenvolvimento vertiginoso de campos como a engenharia genética, a medicina regenerativa e a nanotecnologia estimulam profecias ainda mais otimistas. Alguns especialistas acreditam que os homens vão vencer a morte por volta de 2200; outros anunciam que isso acontecerá em 2100.
Assim, os seres humanos serão amortais, e não imortais. Ao contrário de Deus, os futuros super-homens poderão morrer em alguma guerra ou em um acidente de trânsito, e nada os trará de volta. Contudo, diferentemente de nós, mortais, suas vidas não teriam “data de vencimento”.
Enquanto uma bomba não os fizer em pedaços ou um caminhão não lhes passar por cima, poderão continuar a viver indefinidamente. No entanto, é bem provável que isso fará dessas pessoas as mais ansiosas na História.
Nós mortais arriscamos diariamente nossa vida porque sabemos que ela, de um jeito ou de outro, vai acabar. Assim, saímos em jornadas no Himalaia, nadamos no mar e participamos de outras ações perigosas, como atravessar a rua ou comer fora. Mas, se acreditarmos que podemos viver para sempre, seremos loucos se apostarmos com o infinito.
Será que teríamos um começo melhor se adotássemos metas mais modestas, como duplicar a expectativa de vida? No século XX, no Brasil, a duplicamos — a expectativa de vida passou de 33 anos para setenta anos. Assim, no século XXI, poderíamos ao menos tornar possível uma nova duplicação e chegar aos 150. Embora esteja muito aquém da imortalidade, essa conquista iria revolucionar a sociedade humana.
Não é fácil viver com a consciência de que vamos morrer, mas é muito pior acreditar na imortalidade e constatar tudo se tratar de um equívoco.
Embora a duração média de vida tenha duplicado nos últimos cem anos, não é razoável extrapolar e concluir que podemos duplicá-la novamente para alcançar 150 anos no século seguinte. Em 1900, a expectativa de vida global não excedia os quarenta anos, na média dos países avançados, porque jovens morriam de subnutrição, doenças infecciosas e violência. Porém, quem escapava à fome, à peste e à guerra podia viver até os setenta ou oitenta anos. Esta é a duração de vida natural do Homo sapiens.
Ao contrário do que em geral se supunha, em séculos anteriores os septuagenários não eram considerados aberrações da natureza. Galileu Galilei morreu com 77 anos, Isaac Newton com 84, e Michelangelo viveu 88 anos, sem a ajuda de antibióticos, vacinas ou transplante de órgãos. De fato, mesmo os chimpanzés na selva podem ter seis décadas de vida.
Na verdade, até o presente a medicina não prolongou o tempo de vida natural do ser humano em um ano sequer. Sua grande conquista foi nos salvar da morte prematura e permitir que usufruamos da plenitude da existência.
Mesmo que o câncer, a diabetes e outros grandes assassinos possam ser vencidos, poderíamos nos estender até os noventa anos — mas isso não seria suficiente para nos levar aos 150, muito menos aos quinhentos anos. Para isso, a medicina terá não só de realizar a reengenharia das estruturas e dos processos fundamentais do corpo humano como também descobrir como regenerar órgãos e tecidos. Não está claro se seremos capazes de fazer isso até 2100.
Mesmo que não conquistemos a imortalidade durante nossa existência, a guerra contra a morte ainda será o projeto emblemático do próximo século. Acrescente à nossa crença na santidade da vida humana a dinâmica do estamento científico e a esta as necessidades da economia capitalista, e a guerra implacável contra a morte parece inevitável.
Nosso compromisso ideológico com a vida humana nunca permitirá que simplesmente aceitemos a morte. Enquanto a morte for motivada por alguma coisa, estaremos empenhados em superar suas causas.
O estado científico e a economia capitalista ficarão mais do que felizes em endossar esse empenho. A maior parte de cientistas e banqueiros não se importa com o que estão trabalhando, contanto que isso lhes ofereça a oportunidade de fazer novas descobertas e obter maiores lucros. Pode alguém imaginar um desafio científico maior do que driblar a morte — um mercado mais promissor do que o da juventude eterna?
Fim da Morte?! publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com

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