domingo, 28 de abril de 2019

Especialista em Poupar Dinheiro

Maria Cristina Fernandes (Valor – Eu&Fim-de-Semana, 26/04/19) escreveu sobre “Money Saving Expert”: o maior fenômeno do jornalismo mundial.

Na quinta-feira antecedente à Páscoa, milhões de ingleses receberam em sua caixa postal uma “newsletter” com dicas sobre os postos de gasolina mais baratos do seu trajeto de viagem, dicas de direção para economizar combustível, opções de lazer gratuitas no feriado e restaurantes em que crianças comem por uma libra. Na quinta-feira anterior, a “newsletter” dedicara-se a comparar tarifas das companhias aéreas e dos aeroportos, preços cobrados pelas companhias de seguro, cartões de crédito e planos de operadoras de celular para uso no exterior.

O leitor atravessaria o feriado de Páscoa no computador se se dispusesse a perscrutar todas as dicas recebidas. Seus 13 milhões de assinantes que fazem da “newsletter” semanal “Money Saving Expert” o maior fenômeno do jornalismo mundial. Com uma diagramação simples, sem anúncios, coalhada de números e dicas para baratear seu consumo, tem uma circulação superior à do maior jornal do mundo, o japonês “The Yomiuri Shimbun” (9 milhões), e do mais influente, o “The New York Times” (4 milhões).

Seu autor, o inglês Martin Lewis, tornou-se o jornalista de maior audiência no mundo. O site (https://www.moneysavingexpert.com/), somado aos dois programas semanais na televisão e a um terceiro na rádio BBC, além das colunas publicada em mais de 50 jornais e revistas britânicos, e best-sellers de Finanças Pessoais transformaram-no numa celebridade.

Além de influente, Lewis é rico. Em 2012, vendeu seu site, fundado em 2003, para uma empresa de comparação de preços por 87 milhões de libras (R$ 443,7 milhões), mas continuou à frente de sua operação, que agrega mais de cem jornalistas. Em um perfil que lhe dedicou, o “The Guardian” atribui seu sucesso à competitividade do mercado britânico que, com seus mais de 300 bancos, dúzias de companhias de energia, operadoras de celular e de banda larga, tornou mais complexas as decisões de consumo do dia a dia.

Foi a desregulamentação e a privatização iniciadas na Grã-Bretanha de Margareth Thatcher dos anos 1980 e espraiadas pelo mundo que fez surgir a avalanche de opções de consumo que Lewis tenta destrinchar. O jornalista não põe em questão a ordem surgida. Conforma-se a ela e oferece um guia de navegação. Até porque é a abundância de informações oferecidas que paga a bilheteria do espetáculo. Em uma entrevista ao “Financial Times” depois da venda do site, Lewis não poderia ter sido mais franco. Disse que as pessoas não querem se questionar sobre nada. Preferem as respostas. E ele as entrega.

Parece cinismo, mas Lewis, de fato, parece acreditar no que fala. Nascido em Manchester, numa família judia dona de uma escola para crianças portadoras de deficiência, o jornalista despolitiza o papel que passou a desempenhar na imprensa britânica. Prefere tratar seu sucesso como decorrente de uma desafortunada contingência pessoal que já contou em programas de rádio e televisão, sempre de voz embargada.

Três dias antes de completar 12 anos, perdeu sua mãe num acidente de carro. Ali sua infância acabou e ele ganhou uma blindagem, dada pelo fato de que a vida já lhe havia cobrado tanto que nada mais seria capaz de atingi-lo. Com lágrimas nos olhos, num programa de rádio com transmissão ao vivo pela internet, disse que renunciaria mil vezes ao seu sucesso e se odiava por isso, mas não tinha como fugir à constatação de que a morte de sua mãe na infância era parte de sua explicação. Seu jornalismo, fruto de uma peculiar conjuntura no Reino Unido, passava a ter, em suas próprias palavras, uma razão pessoal, mas não tão pessoal assim que não possa ser compartilhada com suas largas audiências.

Sete anos depois de perder sua mãe, Lewis desembarcaria na capital para estudar ciência política na London School of Economics. Fez política estudantil e chegou a pensar em disputar uma cadeira no Parlamento pelo Liberal, partido de centro. Desistiu e foi trabalhar como assessor numa empresa financeira até se decidir por uma pós-graduação em jornalismo. Numa turma em que a maioria dos colegas sonhava em ser correspondente de guerra, ele tinha ambições mais modestas, que o levaram primeiro a um canal de TV a cabo de finanças pessoais e depois à criação do site, em 2003, que seria vendido nove anos depois.

Lewis desistiu de tentar a sorte nas urnas, mas não abandonou a política. Uma pesquisa de 2015, sete meses antes do Brexit, detectou 71% de confiança em sua opinião sobre o tema, à frente de quaisquer figuras públicas. Num dos seus últimos programas de TV antes do Brexit, Lewis, que parece falar sem teleprompter ou roteiro, diz que não quer mudar o voto do telespectador, mas só espera que ele vote de maneira consciente. Diz que ninguém sabe o que vai acontecer se o país sair da Europa – “Quem disser que sabe está mentindo” -, mas que se, para o telespectador, a economia era um fator a ser levado em consideração, a decisão de voto embutia um risco: “Se o risco econômico não lhe importa, vote para sair. Se você não quiser correr riscos, vote para ficar”.

Se a equação de Lewis estiver certa, o Brexit foi decidido por aqueles que não tinham muito mais a perder, os mesmos que, ao serem desprovidos pelas reformas liberalizantes das últimas décadas, das chances de adquirirem casa própria e gozarem de uma aposentadoria decente e vida confortável ao fim de uma longa lida de trabalho, abandonaram as utopias e aderiram ao jornalismo faça-mais-do-seu-dinheiro.

Boa parte da popularidade de Lewis vem da obstinação com a qual, em nome dos direitos do consumidor, compra briga com políticos. Num programa de TV em 2018, o jornalista interrompeu uma deputada do Partido Trabalhista que questionara se a política de crédito estudantil não deixaria muitos filhos de trabalhadores fora da universidade.

Com voz e gestos muitos tons acima da moderação, Lewis a acusou de assustar jovens mais pobres e mantê-los fora da universidade pelo medo de não serem capazes de pagar o crédito recebido: “O jogo político em que o seu partido e todos os outros têm jogado deseducaram uma geração de jovens sobre como funciona o financiamento estudantil. É abominável”.

Suas dicas para os estudantes sobre como escolher, gerir e pagar o crédito estudantil o levaram a ser convidado para chefiar um comissão independente sobre o tema. Pela pressão exercida por esta comissão, o governo concordou em subir o piso salarial a partir do qual os estudantes, já formados, teriam que começar a pagar o crédito recebido durante a graduação.

Suas querelas empresariais e financeiras já ultrapassam 10 bilhões de libras. Este é o valor das causas ganhas por seus leitores a partir dos modelos de carta ofertados em seu site por meio dos quais se pode reclamar a cobrança de taxas e tarifas indevidas. Nenhuma disputa, no entanto, ficou tão conhecida quanto aquela que opôs Lewis ao Facebook. Ao anunciar que processaria a empresa de Mark Zuckerberg, foi incentivado por políticos de todos os partidos que apostaram no circo em chamas.

O Facebook havia associado o nome de Lewis à propaganda fraudulenta de bitcoins que havia causado prejuízos a consumidores. Depois de longa negociação, Lewis e Zuckerberg chegaram a um acordo por meio do qual o Facebook deslancharia uma campanha contra anúncios falsos e faria uma doação de três milhões de libras destinadas a um projeto pela conscientização contra propaganda enganosa.

Foi um acordo conveniente para ambos os lados. Tanto Zuckerberg capta anunciantes abrigando suas “newsletters” quanto Lewis dá amplitude às suas publicações por meio da rede social. Os custos operacionais da “Money Saving Expert“, que tem uma equipe de cem pessoas para preparar a publicação semanal, são pagos, basicamente, pelas empresas citadas. Não há anúncio nem cobrança pela assinatura. Ao comparar os serviços prestados por diversas companhias de um mesmo setor, a “newsletter” se vale de links. Cada vez que um leitor clica, o site se credita de um valor devido pela empresa citada, ainda que a análise do serviço ou do produto oferecido tenha sido negativa.

Quando confrontado, em entrevistas, com o fato de que uma quantidade crescente de pessoas não tem renda que lhes permita fazer uma escolha de consumo, Lewis não se questiona sobre a inutilidade de seu jornalismo para esses excluídos. Aponta a caridade como saída. Fala dos 20 milhões de libras que já doou para projetos de caridade e para os institutos que já criou – do que trata pessoas com problemas mentais decorrentes de constrangimentos financeiros àquele que oferece suporte emocional para crianças que tenham perdido entes queridos na infância.

Lewis gosta de se definir como um defensor da justiça financeira e não como um jornalista que gosta de dinheiro. Prefere que seus leitores aprendam a gostar do seu e não o gastem desnecessariamente.

Questionado se ao sugerir que uma camisa sairá mais barata se comprada na oferta duas-pelo-preço-de-uma, não está incentivando um consumo desnecessário, Lewis costuma responder com os mantras de sua “newsletter:

  1. Preciso disso?
  2. Posso comprar isso?
  3. Vou usar isso?
  4. Vai valer a pena comprar isso?

Sua ambição é mudar a maneira como as pessoas se relacionam com o dinheiro. Diz que os americanos, por exemplo, que falam mais abertamente sobre o preço que pagam pelo que usam e consomem são mais cientes de seus direitos de consumidor. Ao final de uma de suas “newsletters“, no entanto, a leitura, por exaustiva, sugere que a sina de seus leitores é trabalhar para seu dinheiro e não o contrário.

Especialista em Poupar Dinheiro publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com



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