Raquel Brandão (Valor, 04/11/2019) informa: a redução dos juros no país e o maior acesso ao mercado de dívida ajudaram a melhorar a saúde financeira das companhias, mas esse “quadro clínico” mais otimista ainda está bastante restrito às grandes companhias. Os resultados do terceiro trimestre ainda deverão mostrar esse diagnóstico.
O segundo trimestre de 2019 reforçou a tendência de queda do endividamento das empresas. A relação entre dívida líquida e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (EBITDA, na sigla em inglês) nas empresas de capital aberto chegou ao patamar de 1,97 vez no acumulado de 12 meses encerrados ao fim de junho. Observando os últimos oito anos, esse indicador só esteve mais baixo do que isso em 2011, quando chegou a 1,49 vez.
Os dados do terceiro trimestre começaram a ser divulgados pelas empresas. Eles deverão reforçar essa trajetória, segundo o professor e pesquisador Carlos Rocca, mas também deverão manter sem grandes mudanças um panorama muito menos animador: a geração de caixa das médias e pequenas empresas ainda não supera as despesas financeiras.
Rocca é diretor do Centro de Estudos do Mercado de Capitais da Fipe (Cemec-Fipe). Seu estudo mais recente avalia a situação financeira de 1347 empresas não financeiras – sendo 254 delas companhias abertas – com base nos dados consolidados disponíveis até agora, os do segundo trimestre deste ano. Os dados não consideram os resultados da Petrobras.
O índice de cobertura das despesas financeiras melhorou e chegou a 2,5 vezes, resultado que nos últimos nove anos só é pior do que os de 2011 e 2010, quando esse índice chegou a 3,19 vezes e 4,13 vezes, respectivamente. Esses números significam que, para cada R$ 1 de despesa financeira, as empresas tinham, em média, R$ 2,50 de caixa, segundo os números do segundo trimestre de 2019. A situação mais grave foi em 2015, quando, na média, as empresas tinham algo em torno de R$ 0,70 para cada R$ 1 de despesas financeira.
Mas o levantamento feito por ele mostra também 53% das companhias abertas de médio porte ainda não conseguirem gerar caixa suficiente para cobrir suas despesas financeiras, entre as pequenas esse número chega a 84%, situação até pior do que a observada em 2015, no auge da crise econômica.
“Essas companhias enfrentaram a tempestade perfeita”, avalia Rocca. Houve aumento intenso do custo das dívidas, com a elevação dos juros e uma taxa cambial desfavorável, os bancos diminuíram a oferta de crédito e a demanda do consumo caiu bruscamente. “O cenário de agora só é favorável às companhias que conseguiram manter uma situação razoável de endividamento. Aquelas que entraram em situação de dificuldade antes da queda dos juros ainda não se beneficiam, porque não conseguem entrar no mercado de dívida e têm dificuldade em obter operações de créditos nos bancos”, explica Rocca.
Outro indicador levantado pelo Cemec que ajuda a ilustrar o cenário descrito por Rocca é o de que 23% das pequenas empresas de capital aberto ainda mantêm endividamento excessivo, ou seja, a relação entre a dívida financeira líquida e o Ebitda supera o índice de 5 vezes. Entre as médias e grandes companhias abertas o endividamento excessivo atinge 9,4% e 9,6%, respectivamente. Segundo Rocca, essa situação se deve, além da recuperação ainda lenta da economia, à dificuldade das companhias menores em conseguirem crédito a custo mais baixo, mesmo em um cenário de queda dos juros básicos.
O acesso ao crédito para as companhias só deve melhorar a partir de 2020, acredita o diretor do Cemec, quando alguns novos mecanismos financeiros devem se consolidar, como o cadastro positivo, as duplicatas eletrônicas, o “open banking”, além do fortalecimento das fintechs, startups do setor financeiro.
“O que vimos até agora foi uma mudança mais significativa da queda dos juros para as pessoas físicas. Os fatores que encarecem o crédito para as empresas continuam em prática e acho que só devemos observar melhora quando essas inovações entrarem em ação, trazendo mais transparência e dando fim à assimetria de informações.”
Desalavancagem Financeira das Empresas Não-Financeiras publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com




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