Bruno Villas Bôas (Valor, 28/10/2019) informa: as atividades estão mais concentradas no campo do país com o avanço do agronegócio. É notável a queda do pessoal ocupado e avanço do uso de tecnologias nas propriedades, mas os produtores, embora seja crescente o número de mulheres, estão mais velhos e permanece sofrível seu nível de escolaridade.
Em linhas gerais, este é o quadro apresentado na versão final do Censo Agropecuário 2017, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com dados inéditos sobre receita. Eles confirmam as grandes propriedades abocanharem fatias cada vez maiores da riqueza gerada no setor.
De acordo com o novo censo, fundamental para o estabelecimento de políticas públicas voltadas ao setor e guia para investimentos privados, os estabelecimentos com 100 hectares ou mais concentravam 69,7% da receita bruta da produção agropecuária nacional em 2017. Essa proporção era de 59,2% 11 anos antes, quando foi realizado o Censo Agropecuário 2006.
Há dois anos, o país tinha 404.055 propriedades agropecuárias com 100 hectares ou mais declarantes de alguma receita. Elas faturaram, juntas, R$ 282,4 bilhões – o montante não leva em conta despesas com insumos, mão de obra e investimentos. Essas fazendas também concentravam 79% das áreas com alguma atividade em 2017.
A maior parcela dos estabelecimentos ainda tinha menos de 10 hectares de terras há dois anos. Eram 1,74 milhão de propriedades, ou 46% do total. Mas elas respondiam por apenas 7,4% da receita bruta da produção ou R$ 29,9 bilhões naquele ano. Em 2006, esses estabelecimentos de menor porte respondiam por 11,7% da receita total. Já as propriedades com entre 100 a 1 mil hectares permaneceram com a mesma participação na receita total agrícola, próxima de 28%.
Do número total de 5,073 milhões de estabelecimentos agropecuários identificados no país pelo IBGE em 2017, ante as 5,176 milhões apontadas em 2006, 4,108 milhões eram próprios (81%) e 320,3 mil arrendados (6,3%). O número restante é composto por estabelecimentos ocupados (464,3 mil, ou 9,1% do total), sem titulação definitiva (266,9 mil, ou 5,3%) ou administrados em regime de parceria (177,8 mil, ou 3,5%).
Mais um sinal da concentração é a área total dos estabelecimentos ter aumentado de 333,7 milhões de hectares, em 2006, para 351,3 milhões em 2017. A área total dos estabelecimentos próprios registrou retração de 302,1 milhões para 298,3 milhões de hectares, e a área dos arrendados dobrou, de 15,1 milhões de hectares para 30,2 milhões.
Também como reflexo da concentração provocada pelo avanço do agronegócio e pela migração de jovens do meio rural para o urbano, a agricultura familiar perdeu relevância. Conforme os dados levantados pelo IBGE, o país tinha 3,9 milhões de estabelecimentos rurais familiares em 2017, 77% do total de propriedades. em 2006, eram 83,2% — em números absolutos, são 380 mil estabelecimentos a menos.
Nesse mesmo intervalo, o número de pessoas ocupadas na produção da agricultura familiar também encolheu no país, de 12,3 milhões de pessoas para 10,1 milhões. Desse total, 6,8 milhões eram homens e 3,3 milhões eram mulheres em 2017. Quase meio milhão de pessoas tinham menos de 14 anos de idade.
A queda da agricultura familiar está ligada ao menor interesse de jovens de permanecer no campo porque, com o movimento, o produtor familiar passou a contratar mão de obra, o que desenquadra seu estabelecimento das características previstas na lei. “Se você perguntar para esse produtor, ele vai dizer que é um produtor familiar. Na cabeça dele, ele ainda é. Mas pelo enquadramento da lei, ele perdeu essa característica”.
O levantamento mostra a agricultura familiar ter sido responsável por uma produção de R$ 107 bilhões em 2017, o correspondente a 23% do valor de toda a produção agropecuária brasileira. Essa fatia era de 33% em 2006. “A agricultura familiar está mais atrasada no Nordeste e mais avançada no Sul. O Sudeste e o Norte têm menos agricultura familiar”.
A versão definitiva do Censo Agropecuário 2017 confirmou o avanço de 17,6 milhões de hectares da fronteira agrícola nacional entre 2006 e 2017. Mostrou também 25% dos produtores ainda não saberem ler e escrever, além de mais mulheres estarem no comando das fazendas. Os estabelecimentos ampliaram investimentos em tecnologias como máquinas e insumos – o manuseio de agrotóxicos ainda é um problema – e têm mais acesso à telefonia e à internet.
Censo Agropecuário 2017 publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com

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