sábado, 9 de novembro de 2019

Cai Juros e a Propensão Média a Consumir para Aumentar a “Poupança”

Analistas se enganam com o cenário formulado em ciclo de desalavancagem financeira. Paradoxalmente, a queda dos juros diminuem a propensão ao consumo para as PF manterem seus planos de construir reserva financeira para a futura aposentadoria. Na linguagem popular: “aumenta a poupança”, isto é, o valor planejado para investimentos financeiros.

Arícia Martins (Valor, 05/11/2019) avalia: além do impulso ao consumo, o ambiente de taxas de juros menores, aparentemente mais duradouro no ciclo atual, deve ajudar bastante o investimento. Mais do que a queda da Selic, a redução na curva longa dos juros torna o cenário mais positivo também para quem pretende investir, principalmente na área de infraestrutura, concordam economistas e especialistas do setor. A visão é que projetos antes inviáveis por terem uma taxa de retorno inferior aos juros ficaram atrativos aos olhos dos investidores, em especial aqueles que miram o longo prazo.

As taxas reais de juros brasileiras estão em níveis historicamente reduzidos: o juro real privado de um ano está abaixo de 1% pela primeira vez desde o início do Plano Real, em 1994. O cálculo é feito descontando a inflação projetada para os próximos 12 meses do contrato de swap de juro de 360 dias.

Em um ambiente de baixas taxas de juros, o Brasil pode desenvolver seu próprio mercado de capitais, prolongando prazos e canalizando a poupança do setor privado para projetos mais eficientes, como os de infraestrutura. A formação bruta de capital fixo (FBCF, medida das Contas Nacionais do que se investe em máquinas, construção civil e inovação) vai subir 4,6% em 2020. Essa projeção, considerada otimista, já conta com algum efeito dos juros menores sobre o investimento.

Nesses projetos mais eficientes, as taxas de longo prazo são mais importantes, e também elas mostraram queda expressiva. Apresentação feita pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, na reunião anual do Fundo Monetário Nacional (FMI), em meados de outubro, destaca essa tendência. Segundo Campos Neto, a taxa de frx anos saiu de 18% para 12% há um ano e, agora, está abaixo de 7%.

Os juros devem permanecer mais baixos, mesmo quando a política monetária for normalizada. A taxa Selic, hoje, está em patamar estimulante, ou seja, abaixo do juro neutro, aquele capaz de permitir a economia crescer sem acelerar a inflação. Em algum momento os juros vão voltar para o patamar neutro, mas mesmo assim não devem retornar aos patamares anteriores. Medidas como a reforma da Previdência, controlando o gasto público, permitem queda mais sustentável dos juros, acreditam os economistas neoliberais.

As chances de o BC continuar cortando a Selic em 2020, após reduzir a taxa a 4,5% anuais até o fim de 2019, estão aumentando. E, com a perspectiva de juros baixos por mais tempo, aumenta o interesse por projetos de longo prazo, de baixo risco. Eles pagam um prêmio acima dos títulos do Tesouro.

Cerca de R$ 3,7 trilhões serão investidos em infraestrutura na próxima década. Desse montante, 45% devem ser destinados ao segmento de óleo e gás, enquanto os segmentos de logística e de energia elétrica devem ficar com cerca de 25% dessa fatia cada um.

Para quem toma uma dívida de 10 anos, prazo comum nos projetos de infraestrutura, cada 1 ponto percentual a menos na taxa de juros implica redução de 5% das despesas financeiras. Em um financiamento de 20 anos, as despesas financeiras caem 8,3% e, em um de 30 anos, recuam 11%. É uma grande oportunidade para o setor financiar empreendimentos de prazo mais longo com custo mais baixo.

Pensando do ponto de vista do acionista, a taxa interna de retorno aumenta, reduzindo o pagamento de encargos financeiros. Assim, sobram mais recursos para fazer novos investimentos. Não só os acionistas se beneficiam, mas também o governo, acrescenta: num processo de licitação, com juros menores, o valor das outorgas oferecidas sobe. No caso de uma Parceria Público-Privada (PPP), o valor da contraprestação paga pelo setor público cai.

A nova realidade financeira é mais favorável, mas, sozinha, não garante que muitos projetos vão sair do papel. Como exemplo, o setor de saneamento depende de um novo marco regulatório para investimentos serem destravados. Há, ainda, o pano de fundo de baixo crescimento da economia brasileira. O longo período de frustração com o ritmo do recuperação segura muito o ânimo do setor privado.

Para Cláudio Frischtak, diretor da Inter.B Consultoria, a expansão dos investimentos privados em infraestrutura ainda depende de redução da insegurança jurídica, da aprovação de leis no Congresso como a MP do Saneamento, e também de um ambiente político menos turbulento. A taxa de juros mais baixa cria um clima positivo, mas não é o principal determinante desses investimentos.

Nas estimativas da consultoria, o Brasil vai investir 1,87% do seu PIB em infraestrutura neste ano, pouco acima do resultado de 2018 (1,82%), percentual que poderá chegar a 2,2% em 2020 “se tudo der certo”, diz Frischtak. A alta deve ser puxada pelo setor de transportes, mais especificamente rodovias, com as concessões do governo federal e de Estados. Mesmo assim, o país ainda estará longe de alcançar o patamar de 4,1% do PIB ao ano, estimado pela Inter.B, para modernizar a infraestrutura do país.

As empresas veem um cenário mais pessimista para investir agora, depois de ajustarem suas expectativas, “corrigindo” um excesso de otimismo após a eleição presidencial. Com previsão de crescimento maior em 2020, inflação e juros baixos, o maior risco é o próprio governo inoperante.

Segundo Fábio Graner (Valor, 05/11/19) governo neoliberal está reforçando seu arsenal para provar a redução do Estado já estar surtindo efeitos positivos para a economia. Depois de destacar a liderança do setor privado no atual ciclo, técnicos da área econômica fizeram uma análise mais profunda dos números, constatando: o processo de expansão é liderado pelos investimentos de famílias e empresas e disseminado entre os componentes do PIB. É a chamada autoilusão misturada com autovalidação de só conversar com gente com o mesmo pensamento neoliberal.

Dados apontam para uma aceleração na formação bruta de capital fixo (o nome técnico dos investimentos) privada. A área técnica acredita esse movimento tender a se manter em um ambiente de juros mais baixos e consolidação fiscal.

No material, a SPE fez um exercício excluindo a variação de estoques nas contas nacionais. O resultado foi o produto do setor privado ter crescido 2,2% no segundo trimestre, além do 1,7% apontado recentemente pela própria secretaria, no balanço sobre os nove meses de péssimo governo do capitão.

A abertura do dado mostrou o investimento privado ter contribuído com apenas 1,3 ponto porcentual, com uma expansão de 7,02% no segundo trimestre. Em 12 meses, a alta do indicador foi de 4,87%, acelerando ante os 3,61% do acumulado até o primeiro trimestre.

O subsecretário de Política Macroeconômica, Vladimir Kuhl Teles, disse haver uma quebra estrutural na relação entre o PIB do setor público e o privado. Enquanto até 2016 ainda havia uma relação positiva entre os dois, desde 2017, primeiro ano de vigência do teto de gastos e com uma política clara de redução do Estado, a correlação passou a ser negativa, evidenciando, na visão dele, menos Estado fomenta a expansão privada. Ele é pré-keynesiano! Um neoclássico de um século atrás…

“[A redução do Estado] estimula o empreendedorismo. O investimento privado é benéfico para o país, pois a produtividade aumenta quando há maior crescimento privado”, afirmou o ideológico querendo acreditar na besteira dita. “Quando o crescimento é guiado pelo setor público, cai a produtividade. Hoje a gente está vendo que a decisão de investimento está muito mais direcionada por expectativa de retorno mais alto, e não porque o governo está guiando”, completou o ignorante.

O sujeito reconhece esse movimento do setor privado ainda estar aquém do desejável. Mas, avalia, “a tendência é ele se acentuar, à medida que reformas estruturais para fortalecer o equilíbrio fiscal e o aumento da produtividade da economia tenham sequência, após a aprovação da nova Previdência”. A ladainha neoliberal é monótona — e não se confirma nunca!

Teles discorda da tese de que se, em vez de cair 1,6%, o setor público estivesse ao menos neutro, o crescimento econômico seria maior. Para ele, o processo de redução do PIB estatal, ainda que tenha algum limite, é necessário e tem efeitos positivos claros: queda estrutural nos juros e no risco-país, o que eleva os investimentos privados. Dada a situação de “calamidade fiscal”, aponta, qualquer outra direção seria contraproducente.

De acordo com o subsecretário, a credibilidade construída com a compressão do tamanho do Estado consolida a mudança estrutural no patamar de juros. E isso, diz, deve ter consequências favoráveis na oferta de crédito para as empresas e ajudar setores como a indústria, que há anos tem perdido espaço na economia.

Quem é puxa-saco “chapa-branca” concorda ser preferível e desejável um crescimento dos investimentos e da economia liderado pelo setor privado. Mas pondera ser necessário levar-se em conta os recursos de empresas serem direcionados para as operações de maior retorno e localizadas em regiões mais ricas.

Por isso, o setor público tem papel complementar impossível de ser negligenciado, em especial no desenvolvimento da infraestrutura em regiões mais pobres. É preciso haver investimento público até para estimular o setor privado e a produtividade sistêmica.

Um crescimento de 2,2% do PIB privado ainda está aquém do desejável e a alta dos investimentos ocorre em poucos segmentos industriais. Eles haviam caído muito e precisavam retomar o nível de 2014, antes do golpismo da FIESP. O investimento só virá mesmo quando houver demanda e redução da ociosidade.

O alerta do industrial da FIESP deve ser levado em conta. O Brasil vive historicamente de exageros. Às vezes vai para Estado demais. Às vezes contrai muito. Encontrar a equação correta não é fácil. Mas o fato é que 2,2% de crescimento privado, ainda que seja bem melhor do que 1% do PIB geral, está longe do necessário para resolver os graves problemas de desemprego, desigualdade e pobreza. E, depois de uma das piores recessões da história, e no terceiro ano da agenda liberalizante, resultados melhores na economia naturalmente serão cobrados — e não entregues.

O ministro Paulo Guedes fez mais um comentário infeliz em entrevista à “Folha de S.Paulo” ao dizer: “o rico capitaliza seus recursos enquanto o pobre consome tudo“. Ainda que se dê um desconto, a frase revela um distanciamento do chefe da área econômica para com a realidade da grande massa de famílias deste país.

É claro! Os pobres gastam tudo! Com o pouco que recebem mensalmente no Brasil, a questão da maioria da população não é a renda possível de garantir para se aposentar. Mas sim a sobrevivência diária.

Guedes tem uma visão neoliberal de mundo, cuja implantação foi sancionada pelas urnas movidas por fakes news para elegerem Jair Bolsonaro. Reduzir o Estado, diminuir direitos para supostamente gerar mais empregos, conter gastos públicos, privatizar e por aí vai. Mas lhe falta claramente uma percepção mais realista sobre a situação social do brasileiro médio, suas dificuldades e limitações financeiras.

Para entender melhor vale rever reportagem do Globo Esporte de maio sobre história do jogador Michael, do Goiás. A reportagem mostra que ele, antes de conseguir a proeza e a sorte de ir para um time da série A do futebol brasileiro, chegou a jogar cinco partidas da várzea goiana em um só dia para conseguir pagar uma conta de luz de R$ 150. Como esperar poupança de milhões de pessoas que passam suas vidas em situação de semelhante desespero e que nem sequer têm o bilhete premiado do talento com a bola nos pés?

Cai Juros e a Propensão Média a Consumir para Aumentar a “Poupança” publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com



Nenhum comentário:

Postar um comentário