domingo, 30 de agosto de 2020

Movimento Totalitário 5 Estrelas

Segundo Giuliano da Empoli, em seu livro “Os Engenheiros do Caos” (tradução Arnaldo Bloch. 1ª. ed. São Paulo: Vestígio, 2019), todas as informações são reservadas a um demiurgo externo e onisciente. Pode parecer uma caricatura, mas são exatamente os princípios sobre os quais é fundado o novo Movimento 5 Estrelas. Grillo o apresenta em um teatro, desta vez em Milão, em 4 de outubro de 2009.

Segundo a linguagem sempre muito imagética do comediante, trata-se de uma “não-associação”, regida por um “não-estatuto” que declara, no seu artigo primeiro: “O Movimento 5 Estrelas representa uma plataforma e um meio de confrontação e de consulta. Ele tem suas origens e encontra seu epicentro no blog http://www.beppegrillo.it. O contato com o Movimento 5 Estrelas é garantido exclusivamente por meio da caixa de correio eletrônico, cujo endereço é movimento5stelle@beppegrillo.it.”

Na prática, o Movimento não é nem um partido nem uma associação, mas um blog mesmo, pertencente a Grillo e a Casaleggio. Tem um endereço de e-mail ligado ao mesmo site na internet.

Quem controla essa plataforma detém o controle absoluto da vida do Movimento 5 Estrelas. Além disso, no artigo 3, o “não-estatuto” prevê “o nome do Movimento ser dotado de uma marca registrada em nome de Beppe Grillo, único titular dos seus direitos de uso”.

Essa arquitetura privada sofrerá várias modificações jurídicas, ao longo dos anos, mas nenhuma variação substancial até agora. Hoje, o Movimento 5 Estrelas representa o principal partido da Itália, e, de seus quadros, saíram o presidente do Conselho e a maioria dos ministros do governo atual. Continua a ser, contudo, uma estrutura essencialmente privada controlada por Davide Casaleggio, filho e herdeiro de Gianroberto.

Em torno desse ponto, desde o começo, repousa o grande mal-entendido do Movimento. Para sua base de militantes, internet é sinônimo de participação. É o instrumento de uma revolução democrática destinada a arrancar o poder das mãos de uma casta de profissionais da política e entregá-lo ao homem comum.

Mas, para a elite do próprio Movimento, encarnada pela “diarquia” Casaleggio/Grillo, as coisas são diferentes: internet é, antes de tudo, um instrumento de controle.

É o vetor de uma revolução a partir do topo. Ela capta uma quantidade enorme de dados a fim de utilizá-los para fins comerciais e, sobretudo, políticos.

Desde o início, o modelo organizacional do Movimento se opõe radicalmente à retórica da participação pela base. Essa atitude permite a seus proprietários guiar sua criatura com mão de ferro.

Os partidários são obedientes passivos. É proibido formular críticas ou tomar iniciativas. Cada um é conectado ao Centro através do blog, mas é impedido de estabelecer conexões com outros membros. Quem se desvia do caminho programado é eliminado.

É o caso de centenas de apoiadores, muitas vezes os maiores entusiastas, expulsos por Casaleggio por insubordinação. O rito é sumário e brutal.

Para o Movimento, não sendo nem um partido nem uma simples associação, basta um clique e os traidores estão excluídos do blog. Da noite para o dia, eles acordam desprovidos do direito de acessar a plataforma on-line. Às vezes, recebem uma carta do advogado de Grillo que os proíbe de utilizar o logotipo do 5 Estrelas, propriedade exclusiva desse último.

Se os membros rebeldes são eliminados como dissidentes, por outro lado, os mais disciplinados têm a chance de serem ricamente recompensadas. Com a fundação do Movimento, Grillo deixa de ser o único porta-voz do Vaffanculo.

Nos escritórios da Casaleggio Associati, outros rostos são testados, principalmente de jovens sem nenhuma experiência política ou profissional. Eles “funcionam” nos monitores e podem ser passivamente pilotados pelo comando.

Os melhores – com maior audiência no Facebook e nas outras mídias sociais – são promovidos pelo blog. Em pouco tempo, eles atingem de centenas de milhares a mais de um milhão de seguidores em suas páginas e perfis.

Seus posts e vídeos, publicados obrigatoriamente no blog e em outros sites de Casaleggio, juntam-se às postagens de Grillo e começam a gerar retornos publicitários significativos para o partido-empresa.

“Estamos caminhando para a criação de avatares na vida real”, entusiasma-se Gianroberto. Para ele, o fato de a classe dirigente do Movimento 5 Estrelas ser composta de personagens improváveis, sem experiência ou competência, representa uma vantagem dupla:

  1. são avatares facilmente controlados e, se necessário, substituídos;
  2. sua ignorância, sua gramática aproximativa e suas gafes frequentes, delícia dos jornalistas e adversários políticos, os humanizam e fazem com os avatares serem percebidos como próximos do povo e distantes da casta.

O Movimento experimenta um salto qualitativo na produção da realidade paralela teorizada há muito tempo por Casaleggio. Para os discípulos de Grillo, não é mais necessário sair da bolha para recorrer às mídias tradicionais.

A Casaleggio Associati produz as informações e as distribui em seus próprios canais. Elas já são recortadas, sob medida, para viralizar no Facebook e nas outras redes sociais. Os títulos são sedutores, muitas vezes enganosos, outras vezes violentos. Começam quase sempre com as mesmas palavras e expressões: Vergonhoso, Péssima notícia , Isto é a Itália! , Vocês vão ficar chocados , Basta! , É o fim!.

De início, antecipa-se a emoção, em geral negativa, que se quer suscitar. Depois, divulgada a informação, às vezes verdadeira, mas muito frequentemente falsa, convida-se à participação: Compartilhe!, Faça circular, Máxima difusão! O único critério de seleção, bem entendido, são os cliques.

As notícias suscitadoras das reações mais intensas são valorizadas, republicadas, aprofundadas. Tornam-se objeto de discursos e de iniciativas políticas, cavalos de batalha do Movimento. Outras, tediosas, mesmo quando mais importantes e exatas, terminam o dia no pano de fundo, dando espaço às denúncias de complô e de corrupção, reais ou imaginárias.

Três anos após seu nascimento, o organismo martela o mesmo refrão. Eles são todos iguais. Eles nos arruinaram! Vamos mandá-los de volta para casa!

Em plena recessão, com uma taxa de desemprego de 13% e uma pressão fiscal recorde, os italianos estão cada vez mais receptivos às palavras de ordem simples e vulgares do Movimento. No espaço de alguns meses, o Movimento 5 Estrelas se torna o único verdadeiro partido nacional do país, popular no Norte e no Sul, entre os jovens e entre os velhos, e capaz de captar vozes tanto à esquerda quanto à direita.

Assim chega às eleições de fevereiro de 2013, quando o Movimento, com pouco menos de 9 milhões de votos e 25% do sufrágio, se torna o partido mais votado da Itália. É o estranho triunfo da dupla Grillo/Casaleggio, mas também o começo de seu declínio.

Passadas as eleições, os fundadores conseguem seguir impondo sua linha: jamais comprometer sua pureza, nunca formar alianças para chegar ao governo. O Movimento 5 Estrelas rejeita os convites do Partido Democrata para integrar a maioria governamental e permanece, orgulhosamente, na oposição.

Mesmo que o Movimento tenha entrado na corrente sanguínea das instituições, sua atitude não muda. Seu objetivo continua a ser o de minar, por dentro, as bases da democracia representativa em nome de uma democracia direta made in Casaleggio.

Em sua ótica, os 163 parlamentares eleitos pelo Movimento são, e devem continuar sendo, formigas: “Eles estão lá em nome do Movimento”, declara, “não devem fazer política, são apenas o instrumento de um programa e devem respeitar as regras às quais aceitaram aderir. É simples”.

As humilhações e os controles infligidos aos eleitos, desde o primeiro dia, são incontáveis. Pede-se a eles, por exemplo, que comuniquem à Casaleggio Associati as senhas para acessar suas caixas de e-mail e seus perfis pessoais no Facebook e em outras redes sociais, de forma a dar à empresa o controle absoluto sobre sua existência digital, a ú nica que conta, realmente, aos olhos do Demiurgo.

Mas a violência das declarações do Movimento 5 Estrelas contra as instituições democráticas é só o reflexo da violência verbal com a qual a metralhadora giratória de Casaleggio continua a insuflar no debate político. Na Itália, todo jornalista ou comentarista compreendeu, rapidamente, o simples fato de redigir um texto sobre o M5S (Movimento 5 Stelle, em italiano) o deixava exposto não só a uma onda de críticas – como seria normal –, mas a uma tempestade de insultos ou agressões até físicas.

Em comparação com os conflitos pelo poder, característicos de todas as formações políticas, essa luta tem por singularidade o fato de acontecer inteiramente à sombra e de envolver uma ambição do controle dos cérebros dos adeptos –, da qual pouquíssimos de sua rede social são conscientes.

Movimento Totalitário 5 Estrelas publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com



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