quarta-feira, 10 de junho de 2020

Nova Tentativa-e-Erro em Investir no Mercado de Capitais Brasileiro?

Adriana Cotias (Valor, 29/05/2020) informa: dólar e ouro perderam ímpeto em maio, mas ainda figuram como as modalidades de melhor performance no ranking das aplicações financeiras no ano. A um dia do encerramento do mês é a renda variável despontava na liderança mesmo em meio à pandemia de covid-19, previsões pessimistas para o PIB e ruídos de toda sorte vindos do campo político.

O Ibovespa subia 8% até o dia 28/05/2020, com os índices setoriais igualmente em recuperação. No ano, o principal termômetro do mercado de ações ainda acumulava queda de -24,8%. Já o contrato de ouro na B3 tem, desde janeiro, valorização de +45,6%, enquanto o dólar ganha +34,2%. Entre os índices de renda fixa, o destaque era do IMA-B, que representa uma cesta de títulos públicos atrelados à inflação (NTN-B), com valorização de 1,44% no mês.

Profissionais da área de investimentos “vendedores-de-ilusões” têm um olhar seletivo para a bolsa e no mix de alocação veem chances de ganhos em papéis atrelados à inflação, crédito privado, ouro e multimercados.

Desde a mínima do ano, em 23 de março de 2020, quando fechou em 63.570 pontos, o Ibovespa já subiu quase 37%, premiando quem teve fôlego para ir às compras nos dias de estresse. Mas os bons números não devem dar a impressão de que a crise ficou para trás.

Não dá para falar que as coisas voltaram ao normal. É um cenário que está em processo, porque tem a questão de saúde, mas também a econômica. Para os investidores sem excesso de exposição, a recomendação foi manter a parcela em ações. Se o investidor está alocado na medida correta, baseado na sua aversão por risco, vale a pena continuar se não há alternativa em renda fixa — e se predominar esse pensamento entre os investidores.

Quem tenha perdido quase 30% na bolsa em fevereiro e março, se tivesse resgatado para colocar em uma aplicação atrelada à Selic, demoraria 20 anos para reaver o seu capital. Quem ficou já recuperou boa parte — e poderá perder de novo se não realizar o ganho de capital…

Como o estrangeiro está muito negativo com o Brasil, qualquer melhora de fundamento, local ou externo, pode provocar um rebote de preços. Não quer dizer que resolveu os problemas, mas qualquer melhora marginal pode fazer os ativos brasileiros se recuperarem porque o Brasil tem hoje a pior bolsa e a pior moeda em termos de performance relativa.

Se há espaço para recuperação dos preços das ações, isso deve ocorrer com combustível local, sem o capital externo. Tem mais de R$ 3 trilhões em produtos de renda fixa nas mãos das famílias brasileiras. Tem muito dinheiro rendendo pouco, o movimento de migração para a renda variável continua, apostam os vendedores-de-ilusões.

A XP projeta o Ibovespa em 94 mil pontos até o fim do ano. Uai, não era mais de 130.000 de acordo com a previsão de O Mercado?!

Um sinal de falta de alternativa nessa crise tem sido o fluxo da pessoa física e institucionais (fundos de ações) para a bolsa. O cenário mudou muito, mas as pessoas aproveitaram a oportunidade para investir a preços menores, para aumentar a exposição em renda variável, é uma grande mudança. No passado, o investidor individual era o primeiro a sair.

Para o dinheiro novo, a indicação no Itaú é ir para alternativas conservadoras. Fundos DI podem ser um destino transitório para o caixa, a fim de aproveitar oportunidades à frente. É melhor ter liquidez para quando o mercado começar a voltar.

Para quem prefere adicionar um risco à parcela de renda fixa, os fundos de crédito privado, depois da enorme perda, podem ser uma alternativa, mas levando em conta eles poderem balançar, como ocorreu no meio do estresse. O fundo simples DI só com título público e vai render de 75% a 80% do CDI. Esse é o preço do zero de risco. Se quiser um pouco mais, o investidor vai ter de correr mais risco ou ganhar mais dinheiro com seu trabalho e poupar.

Títulos de curto prazo atrelados à inflação, como o Tesouro IPCA+ estão entre as sugestões para todos os perfis de risco, enquanto para os mais arrojados, a escolha é o vencimento de 2030 ou o fundo de índice (ETF) ligado ao IMA-B, negociado na B3.

O Itaú também manteve a indicação para os multimercados, porque os gestores podem construir a carteira com ativos derivativos capazes de ganhar também com um ambiente mais adverso. Além dos fundos de terceiros componentes da sua oferta, o banco tem trabalhado em carteira recomendada na forma de fundo com ações, estratégias ligadas a juros e ativos internacionais, como dólar ou títulos do Tesouro americano. Nas indicações por perfis, começa a colocar posição em ouro.

No meio da pandemia a melhor relação risco retorno parece estar no mercado internacional. Nas posições “offshore”, a preferência é aplicar em ações via Nasdaq e a títulos de crédito.

Em dívida corporativa, são companhias classificadas como “investment grade”, na melhor escala das agências de risco. Elas compõem o rol de ativos salvos pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) colocou no seu plano de recompras. Esse risco moral acaba sendo uma posição defensiva segundo os especuladores.

Com os estímulos promovidos pelos bancos centrais, o ouro está no portfólio, não só como proteção. Com os juros mais baixos e também a expectativa de inflação futura faz sentido ter a posição não só como hedge, mas também no direcional.

Localmente, a preferência tem sido pela arbitragem entre contratos de DI futuro curtos e longos, pela percepção de haver prêmio nas taxas longas quando se compara à Selic de 3% ao ano. Na estratégia de juro real, a NTN-B mais curta também compõe a carteira, como o vencimento de 2025.

Esse é um tipo de posicionamento sugerido também para o investidor individual. A pessoa física precisa entender é os juros mais baixos por mais tempo são uma oportunidade para buscar outros investimentos. No Tesouro Direto, o Tesouro IPCA+ mais curto disponível para venda é o que vence em 2026. Ele assegura um retorno equivalente à inflação mais 2,8% ao ano.

Em bolsa, agora é o momento de deixar as estratégias passivas de lado e buscar nomes específicos de empresas.

O investidor migrante para estratégias de juros longos, ações e fundos imobiliários por causa do magro retorno do CDI como se não tivessem risco tomou um choque de realidade com a crise.

As pessoas passaram a se questionar ‘esse investimento é para mim’? Quando o banco faz qualquer recomendação, a parte mais importante é a reflexão pessoal, o investidor saber minimamente o que quer. Se precisa do dinheiro no dia a dia, esquece produto de risco. Se tem incerteza no fluxo de caixa, não é para você.

Em geral, os clientes já tinham um posicionamento menor em ativos mais arriscados. No perfil mais arrojado, por exemplo, a indicação é manter 15% em bolsa, enquanto no conservador, nada de ações.

Com o movimento brusco do mercado, ações, multimercados e até fundos de crédito privado perderam pela desvalorização dos ativos e pelos resgates. O cliente se assusta. Mas se tem carteira balanceada, calma!

A carteira para quem tem mais tolerância a risco tem ainda 35% em multimercados, 10% em prefixados, 20% em títulos atrelados à inflação, com o restante no CDI. Por mais que tenha essa recomendação, 90% não chega nem perto disso.

o banco tem para oferecer títulos de emissão própria com retornos acima da inflação, por exemplo, Letras de Crédito Imobiliário (LCI) com rentabilidade equivalente a 110% do CDI para um prazo de 90 dias, ou CDBs – do tipo “raspa conta”, com aplicação automática – com liquidez diária pagando 102% para os valores mais altos, e 100% para os menores?

O momento é de sua poupança apenas não perder da taxa de inflação.

Quer investir novamente no projeto do Guedes de trocar o BNDES pelas debêntures e entupir os fundos de investimentos de crédito privado com elas?!

Ana Paula Ragazzi (Valor, 29/05/2020) informa: os resgates nos fundos de crédito privado sinalizam ter acalmado em maio, após dois meses de fortes perdas de patrimônio. Conforme levantamento da Quantum Finance, até o dia 20 deste mês, o saldo líquido entre aplicações e resgates nesses fundos estava negativo em R$ 8,4 bilhões. Apesar de ainda faltar dez dias para o fechamento do mês, ninguém acreditava as retiradas se aproximarem dos números de abril (com saques líquidos de R$ 31,2 bilhões) e março (R$ 26 bilhões).

Os dados da Quantum mostram: as aplicações continuam muito fracas – até dia 20, somavam apenas R$ 2,8 bilhões, ante R$ 6 bilhões de abril e R$ 16 bilhões de março. Por outro lado, os saques também caíram, chegando a R$ 11,2 bilhões neste mês até dia 20. Em abril e março, somente os resgates foram de R$ 37 bilhões e R$ 42 bilhões, respectivamente.

O patrimônio dessa indústria vem encolhendo desde setembro do ano passado. De lá para cá, a redução foi de -40,5%, saindo de R$ 278 bilhões para R$ 165 bilhões. Dessa perda de R$ 113 bilhões, 97,5% está concentrada em fundos que oferecem ao investidor resgate em prazo inferior a 22 dias úteis.

Os gestores dessa carteiras, que respondem por maior parte da indústria, sofreram com a paralisação do mercado secundário de debêntures, o que levou a vendas de títulos para honrar os saques a qualquer preço na crise. As cotas foram caindo e chamando cada vez mais resgates.

Em alguns casos, o ritmo de resgates de alguns fundos está até mesmo menor que a média histórica. O que falta é a aplicação e isso deve sustentar os spreads de crédito elevados por mais algum tempo”. Esse é um bom momento para comprar papéis de empresas de pouco risco com prêmios elevados?

O desinteresse do investidor por esses fundos neste momento também se reflete na menor quantidade de emissões de papéis no mercado primário. As operações lançadas nos últimos meses foram encarteiradas pelos bancos. Em alguns casos, têm aproveitado para ganhar com a revenda dos títulos no secundário para fundos, a um taxa mais baixa, embolsando a diferença.

Esse movimento cresceu porque, no pacote de medidas emergenciais por conta da covid-19, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) retirou a restrição à venda (“lockup”) por três meses para emissões primárias de títulos de dívida. Assim, o banco pode vender os papéis, em tese, já no dia seguinte à emissão – normalmente para outros fundos, como multimercados e ações, ou para os clientes do private.

Em abril, algumas operações conseguiriam atrair investidores na emissão primária. Em maio, isso também tem acontecido, mas o volume dessas operações está fraco. Conforme dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), até 28 de maio, havia apenas quatro operações fechadas.

A Rumo captou R$ 800 milhões – R$ 100 milhões ficaram com 21 investidores pessoa física e dois fundos compraram R$ 60 milhões. A Lojas Americanas fez uma emissão de R$ 500 milhões e 30% desse valor ficou com 11 fundos. As duas outras operações ficaram com os coordenadores: a Cogna captou R$ 500 milhões em debêntures que ficaram com o Santander. E a CM Hospitalar levantou R$ 65 milhões, em operação com o Banco do Brasil.

Em maio até o momento, foi emitido um total de R$ 1,865 bilhão em debêntures, o que seria o pior resultado mensal do ano, mas o número ainda pode aumentar, pois há pelo menos mais seis operações em andamento: Calamo Distribuidora de Produtos de Beleza, BRK Ambiental (R$ 450 milhões), Intercement, Iguatemi (R$ 300 milhões), CCR (R$ 700 milhões) e Vila Leopoldina Empreendimentos Imobiliários.

No ano, abril reuniu o maior volume de emissões, com R$ 8,2 bilhões; e janeiro foi o mês mais fraco, com R$ 4,6 bilhões.

Um estudo de caso é revelador. A International Meal Company (IMC) pode considerar como uma vitória o acordo fechado com debenturistas para evitar o vencimento antecipado de duas emissões de dívida. Dona das redes Viena, Pizza Hut e Frango Assado, a IMC foi duramente afetada pela covid-19. A maioria de seus restaurantes, em shoppings, estradas e aeroportos, está fechada. A empresa também atua com catering, outro segmento muito afetado pelas dificuldades das companhias aéreas.

As conversas entre a empresa e os debenturistas não foram fáceis e se estenderam por quase dois meses. O saldo final, avaliam fontes, foi bem mais favorável aos acionistas da empresa: de imediato, os papéis da IMC subiram 16,46% na bolsa.

Se economicamente o negócio continua prejudicado, a empresa conseguiu equacionar o problema financeiro. A hipótese é que o acordo foi necessário porque o vencimento antecipado da dívida levaria à judicialização do assunto – em tempos de pandemia, muito provavelmente a tendência da Justiça seria preservar a empresa.

Por essa razão, os debenturistas evitaram a aceleração da dívida, embora tenham saído com a maior parte da conta do problema. No secundário de dívida, há semanas não sai negócio com esses papéis.

As novas condições da primeira emissão da companhia foram aprovadas por representantes de 97,69% das debêntures em circulação da companhia; na segunda emissão, esse percentual foi de 99,09%. Os debenturistas eram cerca de 40 fundos de investimento, e a empresa não tem controlador.

Ficou definido o perdão antecipado para o não cumprimento do compromisso financeiro (covenant) das escrituras das emissões. Ele previa que a relação entre dívida líquida e Ebitda não poderia ser superior a 3.

O novo índice dá uma ideia do tamanho do problema que a covid-19 é para a companhia. A verificação do covenant só voltará a ser apurada em setembro de 2021, e o novo indicador passa a ser 7,5. Em dezembro de 2021, ele cai para 5. E só retomará os 3 da emissão inicial em março de 2022.

A IMC deverá ter Ebitda negativo neste ano – e a melhor notícia possível, segundo um debenturista, será um resultado positivo nessa linha em janeiro de 2021.

Na prática, a IMC ficou mais de um ano desobrigada de cumprir compromissos financeiros. A renegociação não deu aos debenturistas nenhum mecanismo de modo a permitir a eles algum ganho com a recuperação do negócio pós-crise.

Por terem “perdoado” a quebra de covenant, os debenturistas pediram outras alterações nas condições dos papéis. Inicialmente, queriam taxas próximas às negociadas no secundário, de CDI + 10%. Mas o que conseguiram foi um aumento ao redor de 1 ponto percentual em relação à primeira proposta apresentada pela IMC.

A partir de 30 de maio, na primeira emissão, a remuneração da primeira série será alterada de CDI + 1,15% ao ano para CDI + 4,85%; e a taxa da segunda série subirá de CDI + 1,60% para CDI + 5,30%. Na segunda emissão de debêntures da companhia, a remuneração subiu de CDI + 1,30% para CDI +5%.

Apesar de não terem elevado tanto o prêmio, em função do aumento do risco do negócio precificado no secundário, uma fonte observa o aumento ter sido relevante na remuneração. “Que tipo de investimento oferece isso?”, Ora, todos aqueles sabedores que darão o calote!

O acordo prevê ainda: as remunerações antes deveriam ser pagas aos debenturistas em setembro de 2020 e março e setembro de 2021; serão transferidos para o vencimentos das emissões, entre 2024 e 2026. A IMC poderá resgatar os papéis antecipadamente, se fizer isso, terá de pagar aos debenturistas um prêmio correspondente a 0,45% ao ano.

Novos eventos para situações de inadimplência e vencimento antecipado foram criados e vão vigorar entre julho de 2020 e dezembro de 2021. Eles preveem: a IMC terá uma limitação de investimentos em bens de capital (Capex) de R$ 90 milhões – esse valor poderá ser aumentado em montante equivalente se houver um aumento de capital na companhia.

A empresa terá de manter caixa mínimo de R$ 30 milhões e está proibida de:

  1. pagar dividendos (exceto os obrigatórios),
  2. recomprar ações ou
  3. fazer redução de capital.

Um eventual aumento de capital na companhia não está descartado. Ela pode procurar fechar essa operação com a entrada de um investidor financeiro ou estratégico. A empresa vai precisar ajustar a operação e melhorar as suas margens. Estaria nos planos da IMC, futuramente, vender redes de restaurantes possuídas fora do país, com foco nos Estados Unidos.

O jogo especulativo no mercado de capitais não é para PF amadores

Nova Tentativa-e-Erro em Investir no Mercado de Capitais Brasileiro? publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com



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