terça-feira, 9 de junho de 2020

Nem Fundos de Pensão Investem em Ações Brasileiras

Juliana Schincariol (Valor, 02/06/2020) informa: a exposição em renda variável de fundos de pensão de 16 países da América Latina, Oriente Médio, África e Ásia cresceu cinco pontos percentuais desde 2014, enquanto no Brasil caiu, aponta uma pesquisa da consultoria Mercer com entidades administradoras de um patrimônio total de US$ 5,2 trilhões.

O aumento dos investimentos locais em renda fixa, na contramão mundial, é herança dos juros reais altos, mas, com a Selic no menor nível da história, isso poderá mudar ao longo do tempo.

No país, a exposição em renda fixa há seis anos chegava a 61,7% e os dados atuais mostram um patamar de 73,4% — acima da média da América Latina. Já os investimentos em renda variável chegaram a quase 30% dos portfólios, mas caíram para 18,5%. A participação atual é ainda menor se excluídas da conta as maiores fundações do país: Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Funcef (Caixa). Elas possuem investimentos relevantes em bolsa.

Considerando todo o universo da pesquisa, a exposição em renda fixa caiu de 57% para 49% e as alocações em bolsa passaram de 32% para 37%. O estudo é focado em mercados em crescimento. Mostra a realidade daqueles há mais tempo com juros reais baixos. Caso do Japão, cujos investimentos em bolsa dos fundos de pensão ultrapassam 40%. Em Hong Kong, chega a 65%.

Na América Latina, os fundos de pensão de países como Chile, Colômbia e Peru também têm mais exposição em bolsa do que o Brasil. São mercados menores , além do fato de terem juros reais mais baixos há mais tempo.

Além disso, esses países possuem mais planos de contribuição definida. Nessa modalidade os participantes receberão valores acumulados ao longo do tempo. No Brasil, os planos de benefício definido, garantindo aposentadoria vitalícia, ainda têm um pouco de relevância.

No universo dos entrevistados, há uma busca de grandes investidores por mais investimentos estruturados, multimercados, imobiliários, além da renda variável, como alternativa para maior retorno. O levantamento mostrou um aumento total destas classe de investimentos “alternativos” de 3,7% para 4,5% no período analisado.

O Mercado, em vão, espera alterações significativas no portfólio brasileiro ao longo do tempo, quando as incertezas da crise atual começarem a se dissipar. E o atual patamar da Selic, com perspectiva de mais redução, é um catalisador para aumento da diversificação de carteiras, algo já discutido pelos fundos de pensão.

À medida que haja maior convicção de um cenário mais estável, aquilo esperado vai continuar. A diversificação continuará ganhando tração, inclusive no exterior.

No Brasil, essa alocação em ativos no exterior era das opções mais analisadas por entidades, mas ainda não chega a 1% dos investimentos. A pesquisa da Mercer mostra essa realidade ser bem diferente, por exemplo, no vizinho Peru, onde 48% do portfólio está alocado em bolsa, sendo quase metade disso no exterior.

As fundações já implementaram pelo menos parte da estratégia para diversificação no exterior com exposição cambial estão vendo melhores resultados atualmente. É importante considerar como estratégia de longo prazo o investimento internacional faz sentido, porque oferece acesso a mercados e setores não existentes no Brasil. A exposição cambial ajuda a compensar um pouco os prejuízos ou o contrário?

Billy Nauman (Financial Times, 02/06/2020) mostra uma das razões para a preferência em renda fixa em lugar de renda variável no Brasil comparada à do resto do mundo. Depender de dividendos pagos por empresas brasileiras?

Com a pandemia do coronavírus subvertendo a economia mundial, uma longa e crescente lista de empresas, desde a Disney até a Rolls-Royce, reduziu os pagamentos de dividendos. Nos últimos períodos de desaquecimento, esses pagamentos tenderam a se recuperar rapidamente com a volta da normalidade – mas, desta vez, alguns investidores não estão convencidos de que isso irá acontecer.

Eles acreditam: a crise poderá catalisar uma mudança significativa na maneira como as empresas gastam seu fluxo de caixa livre, após a crescente aceitação de as companhias terem responsabilidade com relação aos funcionários e com a sociedade como um todo, tanto quanto com os acionistas.

As empresas estão sendo pressionadas tanto pelos investidores quanto pelos governos. Um número crescente de investidores conclamou as empresas a reduzir os dividendos para garantir que mantenham a adimplência durante a crise. Muitos governos impuseram condições à concessão de socorro, ao exigir, entre outras coisas, que suspendam os pagamentos de dividendos aos investidores.

Assim quando as empresas estancarem a sangria, o novo espírito do tempo (“zeitgeist”, em alemão) corporativo e o sucesso do investimento ligado a fatores ambientais, sociais e de governança (ESG, nas iniciais em inglês) podem levar os cortes de dividendos a serem prorrogados para além do desaquecimento.

“Esta é a primeira recessão em que os investimentos ESG fazem parte do segmento tradicional”, escreveu a analista do Morgan Stanley, em relatório divulgado no mês passado. “Em uma recessão normal, os dividendos são protegidos o máximo possível, com custos operacionais e investimentos de capital cortados a fim de melhorar o fluxo de caixa. No entanto, existe nova ênfase em garantir que funcionários, clientes e a sociedade como um todo sejam priorizados inicialmente.”

Durante a crise financeira mundial de 2008, os Princípios para o Investimento Responsável, da ONU, estavam em sua “infância, com apenas um número reduzido de signatários tendo se comprometido em implementar princípios de investimento ESG. Agora, mais de 2.300 investidores, com US$ 86 trilhões em ativos, aderiram. Isso significa mais dinheiro nas mãos de pessoas que vão avaliar as distribuições de dinheiro e as remunerações dos executivos das empresas em “um contexto mais amplo que o da supremacia do acionista”.

Na verdade, alguns investidores sustentáveis estão pedindo esses tipos de mudança em resposta à covid-19. A associação de investidores institucionais Center on Corporate Responsibility, de Nova York, reuniu 32 desses investidores, com US$ 9,2 trilhões em ativos administrados, para assinar uma carta que defende que as empresas paguem licença remunerada; priorizem saúde e segurança; mantenham o nível de emprego; mantenham as relações com fornecedores e clientes; [e exerçam] a prudência financeira”.

“A supremacia do acionista está distorcendo a maneira pela qual alocamos recursos – e isso chama especialmente a atenção nesta pandemia”, diz o assessor-sênior da Oxfam America. Ele sugere que a fidelidade inabalável das empresas aos acionistas é um dos grandes motivos pelos quais a crise de covid-19 teve impacto econômico tão devastador sobre tantas pessoas. Imagine se as empresas que conseguissem pagar tivessem pagado mais impostos e investido esse dinheiro em saúde pública e proteção social.

Muitas pessoas nos EUA perderam os empregos devido ao foco no “curto prazo” das empresa, em vez de terem sido autorizadas a sair de licença e voltar assim que as restrições de distanciamento social fossem suspensas. “Em vez disso, todo mundo foi descartado e está atrás de migalhas do governo.”

A destruição provocada pelo coronavírus também leva a concluir que os dividendos tendem a ser uma parte de uma conversa mais ampla em torno do enfrentamento da desigualdade de renda. O foco sobre os dividendos é, muitas vezes, prestigiado pelos investidores mais velhos, que contam com eles como fonte de renda sólida na aposentadoria. Mas o fato de a propriedade estar concentrada entre os muito ricos equivale a dizer os dividendos exacerbarem a desigualdade de patrimônio, de gênero e racial.

Uma pesquisa da Oxfam mostrou: 97% de todos os pagamentos de dividendo nos EUA vão para famílias brancas. De longe, os benefícios dos pagamentos de dividendos estão indo para homens brancos ricos. Os outros ficam de fora. Com o destaque dado pelo coronavírus a essas preocupações, isso pode focar a atenção dos investidores sobre a maneira pela qual as decisões deles afetam um conjunto mais amplo de partes interessadas.

Se eu der um passo atrás e examinar os grandes riscos, o clima se mostra como um risco grande, sendo a desigualdade de renda outro que terá um impacto macro significativo sobre as empresas e os mercados financeiros.

Provavelmente veremos o retorno do mercado com o passar do tempo… mas neste exato momento – já se passaram talvez algo como dez anos desde quando as pessoas diziam o clima não tinha nada a ver com finanças. Os investidores não chegarão nisso por si sós. Isso vai exigir legislação.

Não podemos deixar nossa sociedade depender do grau de esclarecimento dos executivos-chefes. Precisamos valorizar as boas empresas, mas, em última instância, mudar as regras do jogo para todas as empresas tomarem essas decisões.

Nem Fundos de Pensão Investem em Ações Brasileiras publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com



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