O percurso proposto por Jean Tirole (1953- ), ganhador do Prêmio Nobel de Economia 2014, por análise do poder e regulação de mercado, no livro Economia do bem comum (1ª.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2020), ao leitor através da economia do bem comum é exigente, mas, espera, enriquecedor.
Este livro não constitui nem um curso acadêmico, nem uma série de respostas formatadas, e sim, a exemplo da pesquisa científica, uma ferramenta de questionamento. E traduz uma visão pessoal de:
- o propósito da Ciência Econômica,
- a maneira como ela é construída e
- o que ela implica.
A visão de uma pesquisa fundamentada na comparação entre a teoria e a prática e de uma organização da sociedade reconhece ao mesmo tempo as virtudes do mercado e sua necessária regulação. A esse título, o leitor poderá vir a discordar de determinadas conclusões, ou talvez mesmo da maioria.
Mas Jean Tirole espera, mesmo em tal hipótese, o leitor encontrar material para reflexão na argumentação deste estudo. Aposta em sua avidez por uma melhor compreensão do mundo econômico em torno de si, na certeza de sua curiosidade o levar a olhar do outro lado do espelho.
O livro Economia do Bem Comum também tem por ambição compartilhar a paixão por uma disciplina, a Economia, janela aberta para o nosso mundo. Até fazer seu primeiro curso de Economia, aos 21 ou 22 anos de idade, Jean Tirole não tivera nenhum contato com essa matéria, exceto pela mídia. Ele procurava compreender a sociedade. Apreciava o rigor da Matemática ou da Física e se apaixonava pelas Ciências Humanas E Sociais, Filosofia, História, Psicologia…
Foi imediatamente cativado pela Economia, pois ela combina a abordagem quantitativa e o estudo dos comportamentos humanos individuais e coletivos. Mais tarde, compreendeu a Economia abrir uma janela para um mundo. Ele não o compreendia direito.
A Economia lhe oferecia uma dupla oportunidade:
- confrontar-se com problemas intelectualmente exigentes e apaixonantes e
- contribuir para a tomada de decisão nas esferas pública e privada.
A Economia não só documenta e analisa os comportamentos individuais e coletivos, como também aspira a tornar o mundo melhor, emitindo recomendações de política econômica.
O livro se desdobra em torno de cinco grandes temas.
O primeiro diz respeito à relação da sociedade com a economia como disciplina e paradigma.
O segundo é dedicado à profissão de economista, desde sua vida cotidiana na pesquisa até seu envolvimento político.
Nossas instituições, Estado e mercado, estão no centro do terceiro tema. Ele as localiza em sua dimensão econômica.
O quarto tema traz elementos de reflexão sobre quatro grandes desafios macroeconômicos. Eles estão no cerne das preocupações atuais:
- o clima,
- o desemprego,
- o euro,
- as finanças.
O quinto tema abrange um conjunto de questões microeconômicas. Elas, sem dúvida, encontram menos eco no debate público, mas são essenciais para nossa vida cotidiana e para o futuro de nossa sociedade. Agrupadas sob o título “A questão industrial”, incluem:
- a política da concorrência e a política industrial,
- a revolução digital – seus novos modelos econômicos e desafios societários –,
- a inovação e
- a regulação setorial.
RELAÇÃO DA SOCIEDADE COM A ECONOMIA
As duas primeiras partes do livro dizem respeito ao papel da disciplina econômica em nossa sociedade, à posição do economista, ao trabalho cotidiano de um pesquisador nessa disciplina, à sua relação com as demais ciências sociais e ao questionamento dos fundamentos morais do mercado.
Por muito tempo, Jean Tirole hesitou em incluir esses capítulos, temendo eles contribuírem para a “glamourização” atual dos economistas, pela qual os comentadores são ávidos, e desviarem a atenção do leitor do verdadeiro objeto do livro, econômico. Acabou decidindo correr esse risco.
Suas discussões nos liceus, nas universidades ou fora desses locais de saber fortaleceram sua percepção das interrogações suscitadas pela disciplina Economia. As perguntas são sempre as mesmas:
- Mas o que faz então um pesquisador em Economia?
- A Economia é uma ciência? Pode haver uma disciplina econômica fundada no “individualismo metodológico”, segundo o qual os fenômenos coletivos resultam dos comportamentos individuais e, por sua vez, afetam estes últimos?
- É possível postular uma forma de racionalidade dos comportamentos e, em caso afirmativo, qual?
- Os mercados são morais?
- Os economistas são úteis, não tendo sabido prever a crise financeira de 2008?
A Economia é ao mesmo tempo exigente e acessível. Exigente, pois, como veremos no capítulo 1, nossas intuições costumam nos pregar peças. Somos todos vulneráveis e suscetíveis a ceder a certas heurísticas e certas crenças.
A primeira resposta que nos ocorre quando refletimos sobre um problema econômico nem sempre é a correta. Nosso raciocínio não raro atém-se às aparências, às crenças apreciadas de cultivar e às emoções sentidas.
A Economia tem como objetivo ir além das aparências. Ela é uma lente capaz de modelar o olhar lançado sobre o mundo e nos permite olhar além do espelho. Desmontadas as armadilhas, a Economia é acessível.
Sua compreensão não é condicionada por uma instrução privilegiada ou um quociente intelectual superior à média. Ela pode nascer da conjunção de uma curiosidade intelectual e de uma cartografia das armadilhas naturais, estendidas por nossa intuição. Todos os capítulos são recheados de exemplos concretos ilustrativos da teoria e reforçadores da intuição.
Repercutindo o mal-estar difuso mencionado anteriormente, numerosos estudos questionam a moralidade do mercado e insistem na necessidade de se estabelecer uma fronteira clara entre os domínios mercadológico e não mercadológico. O capítulo 2 mostra determinadas críticas dirigidas ao mercado em um plano moral não passam na verdade de reformulações da noção de “falha de mercado”, a qual pede uma ação pública, mas não envolve particularmente problemas éticos.
Outras críticas são mais profundas. Jean Tirole procura compreender por que transações de mercado envolvendo, por exemplo, vendas de órgãos, mães de aluguel ou prostituição nos incomodam. Insiste na ideia de o sentimento de indignação, embora suscetível de apontar aberrações nos comportamentos individuais ou na organização de nossa sociedade, pode igualmente ser mau conselheiro. Muitas vezes, no passado, a indignação resultou na primazia das preferências individuais em detrimento da liberdade geral; e não raro ela se exime de uma reflexão em profundidade.
Por fim, o primeiro capítulo analisa nossas inquietudes quanto à fragilização do laço social e à escalada da desigualdade na economia de mercado.
Itinerário do Livro “Economia do Bem Comum” publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com

Nenhum comentário:
Postar um comentário