Marina Falcão (Valor, 09/04/2020) informa: cerca de 80% das empresas com alto nível de governança corporativa listadas na B3 têm caixa para manter suas operações por 20 dias sem entrada de receitas. Essas companhias precisam pagar seus fornecedores antes de receber de seus clientes finais, descompasso de caixa predominante no universo empresarial do país.
A conclusão é resultado de um de um levantamento produzido pelo professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo, Oscar Malvessi. Ele compilou informações financeiras de 144 empresas que compõem o Índice de Governança Corporativa (IGC) da bolsa brasileira, entre os anos de 2010 e 2018.
Os números dão uma dimensão das dificuldades que a maioria esmagadora das empresas no Brasil deve passar nessa crise por conta da epidemia de coronavírus. É um cenário muito difícil.
Empresas com descompasso de prazos precisam de recursos financeiros para bancar suas operações. Segundo o estudo do professor da FGV, essas empresas atuam nos setores diversos, como de alimentos, agronegócios, bens de capital, educação, papel e celulose, química e petroquímica, serviços financeiros, shoppings, siderurgia, metalurgia, têxtil e varejo. São empresas dependentes de antecipação de dinheiro no banco.
No Brasil, as companhias com a vantagem de ter um prazo para pagamento superior ao de recebimento — também chamadas de empresas com capital de giro negativo — são exceção, segundo Malvessi. No IGC, elas são apenas 21% da amostra. O estudo mostra que essas empresas estão distribuídas nos setores de supermercados, energia, sucroalcooleiro, telecomunicações, serviços, transportes, logística e aluguel de carros.
Companhias com capital de giro negativo em geral têm poder de barganha e de mercado suficiente para conseguir prazo nas negociações com fornecedores ou não precisar conceder crédito para os seus clientes finais. Quando essas empresas são incluídas no levantamento de Malvessi, o excesso financeiro disponível para enfrentar a crise dobra para 40 dias, na mediana.
Diante da extensão da crise econômica causada pela pandemia de covid-19, os dias de reserva de caixa parecem muito limitados. No entanto, de acordo com o estudo, a folga melhorou em relação à 2010 (ver quadro acima). Para Malvessi, isso ocorreu principalmente porque as empresas buscaram ampliar sua reserva de liquidez diante de um cenário macroeconômico mais adverso.
Em 2016, durante o auge da maior recessão econômica brasileira no século, a folga financeira, que era 16 dias em 2010, alcançou de 28 dias, considerando o levantamento que inclui apenas as empresas que pagam antes de receber. Segundo Malvessi, o aumento no nível de insegurança em relação à economia provoca esse efeito.
O ideal era trabalhar com o mínimo de caixa, mais pode ter ficado mais difícil tomar empréstimos e conseguir taxas boas. Quando viu uma janela de oportunidade para captar, a empresa trouxe para dentro de casa. De modo geral, as empresas brasileiras trabalham com caixa em proporção acima do caixa das americanas.
Ao mesmo tempo, o crescimento da folga financeira nos últimos anos pode ser atribuído a um avanço na gestão nas empresas com elevado nível de governança. Elas conseguiram aprimorar a conciliação de prazos de pagamento e recebimento. Segundo Malvessi, as empresas com melhoria na gestão de capital de giro tendem a ter crescimento no retorno sobre o capital investido.
Mais de 54% das micro e pequenas empresas do Estado de São Paulo não estão operando na quarentena. Segundo estudo realizado pelo Sebrae-SP, o fôlego de caixa para esses negócios enfrentarem o período dessa paralisação da economia é de apenas 12 dias, na média. E a folga é mais restrita ainda quanto menor for o faturamento da empresa.
O levantamento foi realizado com uma aplicação de questionário a 2.696 negócios no Estado, por e-mail, entre os dias 27, 28 e 29 de março. O resultado mostra:
- empresas com faturamento anual até R$ 81 mil – os chamados microempreendedores individuais (MEI) – têm apenas oito dias de folga de caixa;
- negócios com faturamento entre R$ 81 mil e R$ 360 mil por ano têm 14 dias e
- negócios com faturamento entre R$ 360 mil e R$ 4,8 milhões têm 21 dias.
O cenário é bem crítico e desafiador, pois o horizonte é muito curto.
Os dias de caixa também variam conforme o setor. O excedente de caixa em empresas do ramo de construção dura apenas cinco dias, enquanto no segmento de agropecuária sustenta a operação por 16 dias, na média.
O estudo mostra que o gasto com fornecedores representa 26,2% da estrutura de custos das pequenas empresas, sendo o que mais pesa. Salários e empregados são 17,4% dos gastos.
Chama atenção o fato de a maior parte dos pagamentos (50,6%) das pequenas empresas ser feito em até 30 dias. Em cenário de interrupção de entrada de caixa, poucas têm capacidade de se adaptar. A estrutura financeira das pequenas não considera uma crise temporária desse porte.
Segundo o Sebrae-SP, as empresas já estão pretendendo demitir são 14,9%. Considera esse número ainda baixo, mostrando as empresas estarem buscando alternativas ou esperando alguma ajuda.
A maioria (39,8%) declarou estar esperando alguma ajuda do governo para pagar suas dívidas, enquanto 37% da amostra informou que pretende renegociar com seus fornecedores. O problema é que essas empresas não tem o mesmo poder de barganha das grandes.
Grandes empresas brasileiras captaram cerca de R$ 3 bilhões em debêntures e R$ 2,5 bilhões em notas promissórias na semana de 6 a 9 de abril de 2020. As operações estão saindo basicamente para reforço de caixa e são encarteiradas pelos bancos coordenadores.
O que se vê pelas condições das emissões é que, para as grandes empresas, as taxas subiram em 1 ou 2 pontos percentuais em relação a emissões recentes e os prazos definitivamente caíram. A maioria das operações tem prazo curto, de um ano. Quem conseguiu taxas abaixo de CDI mais 2% ao ano, avaliam analistas, são empresas que estão conseguindo manter negócios na crise, ou que já possuíam linhas de crédito prontas para serem acessadas com os bancos.
A maior operação liquidada recentemente foi do Magazine Luiza, coordenada pelo Bradesco BBI. A varejista captou R$ 800 milhões, pelo prazo de 11 meses, com taxa de CDI mais 1,5% ao ano.
O Bradesco BBI também liderou as emissões da MRV, no valor de R$ 100 milhões, e das controladas da construtora: MRL Engenharia (R$ 60 milhões) e Urba Desenvolvimento Urbano (R$ 40 milhões). As três operações têm prazo de 5 anos e taxa de CDI mais 1,5% ao ano.
A Comgás, no dia 1o de abril, emitiu R$ 200 milhões em notas a CDI mais 3% com o Santander, no dia 7, lançou R$ 500 milhões em notas via Bradesco, com o mesmo prazo de um ano, mas a CDI mais 3,4%.
Aprovada no dia 7 de abril de 2020 pelo Senado, a linha de crédito a micro e pequenas empresas com recursos do Tesouro Nacional não tem apoio do Ministério da Economia. A linha negociada com o Congresso seria focada apenas nas microempresas e teria um limite de crédito menor. A redação aprovada nesta semana pode liberar mais de R$ 400 bilhões em empréstimos, segundo cálculos do governo. A ampliação coloca em risco o programa, que era estimado em R$ 13,6 bilhões.
“Isso inviabiliza o projeto”, disse um membro da equipe econômica. O texto, que visa dar suporte às empresas durante a pandemia de coronavírus, ainda precisa ser apreciado pela Câmara.
Voltada a empresas com faturamento de até R$ 4,8 milhões, a linha em discussão no Congresso quer oferecer empréstimos de até metade da receita bruta anual da empresa. O Tesouro entrará com 80% dos recursos.
A ideia do governo era beneficiar apenas microempresas, com faturamento de R$ 81 mil a R$ 360 mil. A empresa teria liberado 30% da média do faturamento mensal vezes dois. O desenho inicial destinava ao programa R$ 13,6 bilhões, sendo R$ 10,9 bilhões do Tesouro. Esse, no entanto, foi o valor apresentado na terça como relativo ao projeto do Senado. Pela proposta do governo, uma empresa com receita de R$ 360 mil teria direito a R$ 18 mil em crédito. Pelo texto do Senado, seriam R$ 180 mil.
O Ministério da Economia diz: seriam atendidas só as microempresas, pois essas ficaram de fora do financiamento à folha de pagamento. Optou-se por utilizar um projeto já em andamento para dar celeridade à discussão. “Era um projeto emergencial e quiseram resolver um problema estrutural de crédito”, disse a fonte.
A equipe já discute opções. Está em estudo a negociação com a Câmara para alterar o texto ou o envio de uma medida provisória com o escopo inicial. Se aprovado como está, o texto poderá ser vetado.
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