Robert J. Shiller, no livro “Narrative Economics: How Stories Go Viral & Drive Major Economic Events” (Princeton University Press; 2019), tem apenas uma visão parcial das forças capazes de transformar algumas narrativas em epidemias. A capacidade das narrativas de “viralizarem” é um mistério.
Shiller tenta responder à pergunta-chave: por que algumas narrativas se tornam virais?
É difícil afirmar com precisão ou quantificar o motivo pelo qual algumas narrativas econômicas se tornam virais, enquanto a maioria não o faz. A resposta está em um elemento humano interativo com as circunstâncias econômicas.
Além de algumas regularidades simples e previsíveis, uma rede de mentes humanas às vezes age quase como um gerador de números aleatórios ao selecionar quais narrativas se tornam virais. A aparente aleatoriedade nos resultados tem a ver com a aleatoriedade na mutação de histórias para formas mais contagiosas e com momentos de nossas vidas e atenções individuais.
Elas podem levar a um clímax repentino de atenção pública a narrativas específicas. Rotineiramente, nos ficamos intrigados somente anos depois sobre as razões do sucesso das narrativas populares na história e suas consequências econômicas.
Há espontaneidade fortuita das narrativas no pensamento e nas ações humanas?
No início do século XX, estudiosos de uma ampla variedade de disciplinas começaram a pensar as narrativas, ouvidas como histórias aparentemente apenas com valor de entretenimento, são centrais para o pensamento e a motivação humanos. Por exemplo, em 1938, o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre escreveu:
“Um homem é sempre um contador de histórias, vive cercado de histórias e histórias de outras pessoas, vê tudo o que lhe acontece através delas; e ele tenta viver sua vida como se a estivesse narrando.”
A história de si mesmo e as histórias contadas sobre os outros têm inevitavelmente conexões diversas com o chamado de “interesse humano”, direta ou indiretamente.
Quando dormimos à noite, as narrativas nos aparecem na forma de sonhos. Não sonhamos com equações ou figuras geométricas sem algum elemento humano.
Os neurocientistas descreveram o sonho, envolvendo personagens, cenários e uma estrutura hierárquica de eventos, com base no instinto de contar histórias. De fato, a atividade do cérebro durante o sonho se assemelha à atividade de certos cérebros danificados, nos quais as lesões do sistema límbico anterior e suas conexões subcorticais levam a confabulações espontâneas.
Em suas tentativas de entender os movimentos sociais, os sociólogos começaram a pensar no contágio das narrativas como central para a mudança social. Por exemplo, a socióloga Francesca Polletta estudou o movimento social da década de 1960. Nele, os americanos brancos participaram de protestos de discriminação contra os negros. Ela relatou os estudantes descreverem as manifestações como não planejadas, impulsivas, “como febre” e “acima de tudo”, e mais uma vez, espontânea.
Essas manifestações eram frequentemente dirigidas por uma narrativa popular em particular sobre os negros. No sul dos Estados Unidos, ofereciam serviços, nos balcões de almoço, rotulados como “somente brancos”. Acompanhados por jovens apoiadores brancos, passeatas demonstravam indignação moral com a exclusão dos negros. Esse tipo de protesto, batizado de “manifestação”, acabou se tornando um símbolo de um novo movimento social.
Antropólogos pesquisam o comportamento de diversas culturas ao redor do mundo. Observam uma classe de comportamentos chamados de “universais”, encontrados em todas as sociedades humanas, se não em todos os indivíduos.
O antropólogo Donald E. Brown identificou um comportamento universal importante como argumento para este livro de Shiller: as pessoas “usam a narrativa para explicar como as coisas aconteceram e contar histórias”.
De fato, a narrativa é um fenômeno exclusivamente humano, não compartilhada por nenhuma outra espécie. [Harari conta o papel dos cantos de pássaros e urros de animais como advertências de perigos.]
De fato, alguns sugeriram as histórias distinguirem os seres humanos dos animais, e até nossa espécie ser chamada Homo narrans (Fisher, 1984), Homo narrator (Gould, 1994) ou Homo narrativus (Ferrand e Weil, 2001). Essa descrição pode ser mais precisa em lugar do Homo sapiens (isto é, “homem sábio”)? É mais lisonjeiro pensar em nós mesmos como Homo sapiens, mas não necessariamente mais preciso.
Por que algumas narrativas se tornam virais? publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com

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