Yuval Noah Harari, no livro “Homo Deus: Uma breve história do amanhã” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015), depois da fome, trata de apresentar o segundo maior inimigo da humanidade era representado pela peste e pelas doenças infecciosas.
Cidades fervilhando de gente conectadas por um fluxo incessante de comerciantes, funcionários e peregrinos, eram ao mesmo tempo o fundamento da civilização humana e o terreno ideal para a proliferação de agentes patogênicos. Em consequência, as pessoas na antiga Atenas ou na Florença medieval viviam suas vidas conscientes de que poderiam adoecer e morrer em dias, ou que subitamente poderia irromper uma epidemia e destruir toda a sua família numa única investida.
A mais famosa dessas irrupções, a chamada Peste Negra, ou peste bubônica, teve início na década de 1330, em algum lugar da Ásia Central ou Oriental, quando a bactéria Yersinia pestis, que tinha a pulga como hospedeiro, começou a infectar os humanos que eram picados por esse inseto.
De lá, montada num exército de ratos e pulgas, a peste espalhou-se rapidamente pela Ásia, Europa e pelo norte da África, levando menos de vinte anos para chegar às margens do oceano Atlântico. Entre 75 milhões e 200 milhões de pessoas morreram — mais de um quarto da população da Eurásia. Na Inglaterra, quatro em cada dez pessoas pereceram, e a população caiu de 3,7 milhões antes da peste para 2,2 milhões depois dela. A cidade de Florença perdeu 50 mil de seus 100 mil habitantes.
As autoridades eram completamente impotentes diante da calamidade. Além de organizar orações em massa e procissões, não tinham ideia de como interromper a propagação da epidemia — e muito menos de como curá-la. Até a era moderna, a culpa pela doença foi atribuída ao ar viciado, a demônios maliciosos ou a deuses raivosos; não se suspeitava da existência de bactérias e de vírus.
A Peste Negra não foi um evento singular, nem mesmo a pior peste registrada na História. Epidemias mais calamitosas assolaram a América, a Austrália e as ilhas do Pacífico na sequência da chegada dos primeiros europeus. Exploradores e colonizadores, sem saberem, trouxeram consigo doenças infecciosas contra as quais os nativos não tinham imunidade. Como resultado, até 90% das populações locais morreram.
Epidemias continuaram a matar dezenas de milhões de pessoas em pleno século XX. Em janeiro de 1918, soldados nas trincheiras do norte da França começaram a morrer aos milhares de um tipo especialmente virulento de gripe, denominado “gripe espanhola”. A linha de frente da guerra era o ponto final da mais eficiente rede de suprimento global que o mundo tinha visto até então. Homens e munições jorravam da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos, da Índia e da Austrália.
O petróleo era enviado do Oriente Médio, grãos e carne chegavam da Argentina, a borracha vinha da Malásia, e o cobre, do Congo. Em troca, todos receberam a gripe espanhola. Em poucos meses, cerca de meio bilhão de pessoas — um terço da população global — foi infectado com o vírus. Na Índia ele dizimou 5% da população (15 milhões de pessoas). Na ilha do Taiti, 14% dos habitantes morreram. Em Samoa, 20%. Nas minas de cobre do Congo, um em cada cinco trabalhadores pereceu. No total, a pandemia matou entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas em menos de um ano. A Primeira Guerra Mundial matou 40 milhões de 1914 a 1918.10
Além desses tsunamis epidêmicos que atingiram o gênero humano a cada poucas décadas, houve ondas menores, porém mais regulares, de doenças infecciosas que todo ano matavam milhões. Crianças com baixa imunidade eram particularmente suscetíveis, daí a frequente designação de “doenças infantis”. Até o início do século XX, cerca de um terço das crianças morria de uma combinação de desnutrição e doença.
Durante o último século, a humanidade ficou ainda mais vulnerável a epidemias, graças à combinação de dois fatores: aumento da população e meios de transporte mais eficientes. Um vírus espanhol pode chegar ao Congo ou ao Taiti em menos de 24 horas. Seria de esperar, portanto, que vivêssemos em um inferno epidemiológico, com sucessivas pragas letais.
No entanto, tanto a incidência como o impacto das epidemias decresceram dramaticamente nas últimas décadas. Particularmente, a mortalidade infantil global é a mais baixa de todos os tempos: menos de 5% das crianças morrem antes de chegar à idade adulta. No mundo desenvolvido, a taxa é de menos de 1%.
Esse milagre se deve às conquistas sem precedentes da medicina no século XX. Ela nos proveu de vacinas e antibióticos, com higiene e infraestrutura médica muito melhores.
Por exemplo, uma campanha global de vacinação antivariólica foi tão bem-sucedida que, em 1979, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a humanidade tinha vencido, pois a varíola fora erradicada. Foi a primeira epidemia que os humanos conseguiram varrer da face da Terra. Em 1967, a varíola havia infectado 15 milhões de pessoas e matado 2 milhões, mas em 2014 não houve uma única pessoa infectada ou morta por essa doença. A vitória foi tão completa que a OMS já parou de promover a vacinação contra a varíola.
De tempos em tempos ficamos alarmados com a irrupção de uma nova praga potencial, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (na sigla em inglês, Sars) em 2002-3, a gripe aviária em 2005, a gripe suína em 2009-10, e o Ebola em 2014. Mas, graças a contramedidas eficientes, esses incidentes resultaram, até agora, num número comparativamente menor de vítimas.
Até a tragédia da aids, aparentemente o maior fracasso da medicina nas últimas décadas, pode ser vista como um sinal de progresso. Desde sua primeira irrupção, no início da década de 1980, mais de 30 milhões de pessoas morreram de aids, e mais dezenas de milhões sofreram debilitação física e danos psicológicos.
Essa epidemia foi difícil de entender e de tratar por ser uma doença singularmente tortuosa. Enquanto uma pessoa infectada com o vírus da varíola morre em alguns dias, um paciente HIV positivo pode parecer perfeitamente saudável durante semanas e meses e continuar infectando outros sem saber. Além disso, o próprio vírus HIV não mata. Em vez disso, destrói o sistema imunológico e, em decorrência, expõe o paciente a inúmeras outras doenças. São as doenças secundárias que efetivamente matam as vítimas da aids.
Em consequência, quando essa síndrome começou a se espalhar, foi especialmente difícil compreender o que estava acontecendo. Em 1981, quando dois pacientes foram admitidos num hospital em Nova York, um ostensivamente morrendo de pneumonia, e o outro, de câncer, nada evidenciava que ambos eram vítimas do vírus HIV, que pode tê-los infectado com meses, até mesmo anos, de antecedência.
No entanto, apesar dessas dificuldades, depois que a comunidade médica tomou ciência do novo e misterioso mal, só levou dois anos para que os cientistas o identificassem, compreendessem como o vírus se disseminava e sugerissem meios efetivos de desacelerar a epidemia. Mais dez anos, e novos medicamentos fizeram com que a aids se transformasse, passando de uma sentença de morte para uma condição crônica (ao menos para aqueles saudáveis o bastante para serem tratados).
Apesar do horrendo dano causado pela aids, e a despeito dos milhões que morrem a cada ano de doenças infecciosas há muito estabelecidas, como a malária, as epidemias representam uma ameaça muito menor à saúde do homem do que representaram no milênio anterior. A imensa maioria das pessoas morre de enfermidades não infecciosas, como o câncer e doenças cardiovasculares, ou simplesmente de velhice.
A propósito, o câncer e as doenças cardiovasculares não são, é claro, doenças novas — elas remontam à Antiguidade. No passado, contudo, era relativamente reduzido o número de pessoas que viviam tempo bastante para morrer por causa delas.
Muitos temem que essa vitória seja apenas temporária e que algum primo desconhecido da Peste Negra esteja nos aguardando na próxima esquina. Ninguém pode assegurar que pragas não tornarão a acontecer, mas há boas razões para acreditar que, na corrida armamentista entre médicos e germes, os médicos estão na frente.
Novas doenças infecciosas estão aparecendo principalmente como resultado de mutações eventuais nos genomas dos patógenos. Essas mutações permitem que os patógenos pulem dos animais para os humanos, superem o sistema imunológico humano, ou resistam a medicamentos como os antibióticos. É provável que no presente as mutações ocorram e se propaguem mais rapidamente do que no passado em face do impacto do homem sobre o meio ambiente. Mas na corrida contra a medicina, os patógenos, em última análise, dependem da mão cega da sorte.
Do outro lado, os médicos contam mais do que meramente com a sorte. Ano após ano os médicos acumulam mais e melhores conhecimentos, que utilizam para conceber e projetar medicamentos e tratamentos eficazes. Em consequência, embora não se tenha dúvida de que em 2050 vamos ter de enfrentar germes muitos mais resistentes, a medicina naquele ano estará capacitada a lidar com eles com mais eficiência do que hoje. As grandes epidemias vão continuar a pôr a humanidade em perigo no futuro se, e somente se, a própria humanidade as criar, a serviço de alguma ideologia brutal.
Doença: Peste e Doenças Infecciosas publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com

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