Danylo Martins (Valor, 20/06/18) alerta: se há alguns anos as fintechs eram vistas pelos bancos com certo receio, agora as novatas do setor financeiro são encaradas como possíveis colaboradoras. É consenso entre os executivos e os especialistas que as fintechs podem complementar a oferta de produtos e serviços bancários.
Hoje, o clima é mais de colaboração do que de competição. Cinco anos atrás, dois terços das fintechs eram criadas para competir com os bancos. Isso mudou.
A mentalidade empreendedora e a rapidez no desenvolvimento de tecnologias também servem de inspiração para os bancos. O banco
Santander, p.ex., deu início ao Radar Santander, programa de apoio a empreendedores desenhado em parceria com a Endeavor. Focada em empresas mais maduras (scale-ups), a iniciativa ofereceu mentoria a cinco startups na primeira edição. Uma delas, a Moneto, tornou-se parceira do Prospera Santander, programa de microcrédito do banco. Na segunda rodada, em andamento, cinco empresas participam da mentoria.
No Banco do Brasil (BB), um dos primeiros pilares da aproximação com o universo de startups foi a criação de um laboratório de inovação no Vale do Silício, em de 2016. No mesmo ano, o banco expandiu a ideia, com um laboratório de inovação em Brasília. Depois, firmou parceria com a aceleradora Startup Farm. O desafio hoje é adaptar sua cultura a um processo de mudança muito mais veloz.
Uma das principais fontes de inovação do Itaú Unibanco é o Cubo. Com 55 residentes, o local quadriplicou de tamanho para 20 mil m2, com expectativa de abrigar 210 startups. Além do espaço físico, o banco montou uma plataforma digital para reuunir 253 startups.
Funciona como um radar. Se a solução agregar valor para o cliente, trabalha em parceria. Mais de 40 projetos foram desenvolvidos entre o banco e startups residentes do espaço. Um deles foi com a BLU365 (antiga Kitado): por meio da plataforma, correntistas do banco podem negociar as dívidas pelo computador ou celular.
No Bradesco, as quatro edições do inovaBra startups avaliaram 3.100 projetos e testaram 30 piloto. Por meio de um fundo de venture capital com patrimônio de R$ 100 milhões três startups receberam aportes e outras dez estão sendo avaliadas. O banco inaugurou o inovaBra habitat, espaço de co-inovação de 22 mil m2 na região da Consolação. Está com mais de 130 startups e logo chegará a 200.
O BTG Pactual lançou o boostLAB, em parceria com a aceleradora ACE. Na primeira edição, o programa recebeu 124 inscrições e selecionou seis startups. O objetivo não é apoiar apenas fintechs, mas empresas que tenham conexão com todos os negócios do BTG, como a Engelhart Commodities Trading Partners (ECTP). Uma das selecionadas foi a Agronow, plataforma de monitoramento de safra via imagens de satélites.
O francês Société Générale já investiu em diversas fintechs, atua em parceria com incubadoras e participa de dez dos 20 maiores ecossistemas de fintechs no mundo. Em Paris, o banco mantém um espaço chamado Le Plateau, onde abriga 25 startups, além de cinco que surgiram a partir de projetos dos próprios funcionários. O Innovation Lab começou como um espaço para startups no Senegal e na Tunísia. A expectativa é ser lançado no Brasil.
Há dois anos, a Caixa Econômica Federal tem uma diretoria de transformação digital para ficar mais próxima de startups. Uma das iniciativas foi criar a figura do correspondente digital. Ele opera em nome do banco, mas pode usar plataformas de negócio próprias. A instituição também se prepara para lançar um fundo de investimento em fintechs, em parceria com uma aceleradora.
O avanço das fintechs na América Latina é visível. Aumentou não só o número de empresas mas também o apetite de investidores e fundos de venture capital por startups da região. Iniciativas em países como México, Colômbia, Chile e Argentina têm potencial de crescimento, principalmente com o objetivo de melhorar a inclusão financeira.
É um desafio em comum, e no Brasil não é diferente. Há cerca de 60 milhões de desbancarizados no país, segundo o estudo mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). [Qual?! Mentira!]
Segundo o presidente do comitê de fintechs da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), o mercado latino-americano traz oportunidades para a evolução das fintechs por ineficiências, desigualdades e altas taxas cobradas por bancos, em especial para pequenas empresas.
Os países começam, ainda que de maneira tímida, a unir esforços para desenvolver o ecossistema na região. A inclusão financeira é desafio comum de quase todos os países, tirando alguns aspectos culturais específicos. Criada no ano passado, a Alianza Fintech Iberoamericana é um exemplo dessa parceria entre as nações.
À medida que a regulamentação avança, dando mais segurança a empreendedores e investidores, a tendência é de aumento na quantidade de startups na América Latina. Apesar de o Brasil liderar o número de iniciativas, é no México que a legislação anda a passos mais acelerados. O país foi o primeiro a sancionar uma lei específica sobre fintechs.
O documento mexicano, conhecido como Ley Fintech, regula serviços financeiros prestados por empresas de tecnologia, incluindo questões relacionadas a crowdfunding, meios de pagamento e normas para transações utilizando criptomoedas, como bitcoin.
Uma das principais promessas das fintechs do país centro-americano é a inclusão financeira, mas o desafio é cumprir o prometido. Segundo ele, pessoas de baixa renda que têm conta em banco vão a cada 15 dias a uma agência para fazer saques. Isso porque comerciantes, principalmente os pequenos, aceitam pagamento apenas em dinheiro vivo.
Os bancos cobram caro de comerciantes. Estes, sem acesso a crédito, recorrem a entidades informais, cujos empréstimos têm taxas muito altas. É aí que está um dos nichos de atuação para as fintechs.
Um dos destaques no país é a Konfio, plataforma on-line de empréstimos para microempresas. Fundada em 2013, a startup levantou US$ 18,1 milhões em rodadas de investimento, incluindo recursos captados de fundos como QED Investors, Kaszek Ventures, Quona Capital e Jaguar Ventures, além do International Finance Corporation (IFC), braço financeiro do Banco Mundial.
Outro exemplo é a Clip, cujo leitor de cartões possibilita aos usuários aceitar pagamentos com cartão de crédito por meio de smartphones e tablets.
Startups de pagamentos e empréstimos on-line são as que mais crescem tanto no México quanto em outros países, como Colômbia, Chile, Argentina e Peru. Alguns players no segmento de pagamentos de carteiras digitais acabam atingindo pessoas não bancarizadas, aumentando o nível de acesso aos produtos e serviços financeiros.
Ainda assim, é muito difícil implementar novas soluções no setor financeiro colombiano. As agências regulatórias estão começando a olhar mais para o setor.
Fintechs e Inclusão Financeira publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com

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