Ana Lúcia Moura Fé (Valor, 20/06/18) informa: bancos brasileiros avançam nos testes e no uso efetivo do blockchain (cadeia de blocos) em aplicações que vão de transferência internacional de dinheiro a negociações com contratos de derivativos de balcão, entre vários outros processos.
A tecnologia, conhecida por suportar a moeda virtual bitcoin, funciona como um livro contábil distribuído, ou seja, os registros são compartilhados entre os participantes e ficam gravados em vários lugares. O encadeamento dos registros vale-se de forte criptografia para impossibilitar alterações ou exclusão dos mesmos ou mudança de sua ordem na cadeia.
No caso do bitcoin, a participação na rede é aberta a qualquer interessado. Ele só precisa baixar um software específico em seu computador. Não há autoridade central conhecida para fiscalizar e legitimar as transações. Elas ficam visíveis para todos os membros. A confiança baseia-se em algoritmos criptográficos.
No âmbito dos bancos, por outro lado, as abordagens em sua maioria envolvem plataformas privadas, também conhecidas como redes permissionadas ou blockchain para negócios. Nessas implementações, são mantidas as características essenciais da tecnologia, como a imutabilidade dos dados e a segurança das transações, mas há autoridade conhecida garantindo essas transações.
Além disso, a adesão à rede não é livre e os membros se conhecem. Há critérios para aprovação de participantes e controle sobre visibilidade de dados, ou seja, é possível definir qual membro da rede pode enxergar dados da transação.
Tais princípios alinham-se às características atuais das operações da indústria financeira. Transferências bancárias, por exemplo, requerem aprovação da instituição como participante do SPB (Sistema de Pagamentos Brasileiro). Os dados da transação ficam visíveis apenas para os envolvidos.
A segurança nas implementações vai além da criptografia inerente ao blockchain. Agrega todas as camadas de proteção já embarcadas nos canais digitais de cada um dos bancos participantes de uma rede.
O Santander tem enfatizado iniciativas com as plataformas Hyperledger e Ripple, ambas privadas, e com a Ethereum, rede pública baseada em código aberto. Esta última tecnologia desperta especial interesse por ser muito bem-sucedida em capacidades de smart contract. Smart contract, ou contrato inteligente, abriga regras de negócio definidas pelos participantes de uma rede de blockchain.
A tecnologia Ripple, uma startup com investimentos do fundo de capital empreendedor do Santander, está por trás do primeiro serviço no país de transferências internacionais para pessoas físicas usando blockchain, lançado pelo banco em abril de 2018. Batizada de One Pay FX, a solução permite correntistas usarem smartphone para transferir libras esterlinas do Brasil para o Reino Unido.
As operações são efetivadas em minutos ou mesmo segundos. O tempo máximo até agora foi de duas horas. Uma transferência tradicional costuma levar de três a cinco dias.
A tecnologia também permite o usuário acompanhar em tempo real todas as etapas do processo. A experiência é similar ao conhecido no e-commerce, quando acompanha na internet o trajeto da sua compra.
Este ano, o serviço deve incorporar remessas de euros para os demais países da UE. Em 2018, está prevista liberação de envio de dólares para EUA e recebimento de remessas em reais no Brasil.
Há risco de se enxergar blockchain como solução para todo e qualquer tipo de problema. Há casos em que o uso da tecnologia não faz sentido.
O Bradesco faz testes piloto envolvendo em especial as plataformas R3 Corda, Hyperledger e Quorum. Entre os experimentos, o Bradesco Push Service ainda não tem data para entrar em produção. A proposta é criar uma rede blockchain com tecnologia R3 Corda para envio de mensagens para correntistas e não correntistas avisando se houve ou não determinado pagamento.
O Grupo de Trabalho Blockchain da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) apresentou, em 13 de junho de 2018, versão preliminar de uma solução para uso blockchain, onde qualifica os dispositivos móveis usados por clientes em seus relacionamentos digitais com bancos.
O protótipo compartilha informações sobre celulares e tablets envolvidos em fraudes, roubos ou perda do aparelho. De posse desses dados, cada instituição pode decidir sobre qual ação de segurança tomará, como, por exemplo, bloquear o acesso do dispositivo não confiável a processos digitais de adesão a serviços bancários.
A proposta está em fase de avaliação e validação pelas áreas de negócio das instituições que participaram da iniciativa. Se os bancos enxergarem valor e exequibilidade no protótipo, avançaremos para projeto-piloto.
A solução adota a plataforma Hyperledger Fabric. É a opção para este protótipo específico, mas não significa ser a definitiva. A escolha foi precedida de avaliação minuciosa de vários requisitos de duas plataformas, consideradas pelo GT as mais promissoras, por possuírem roteiro de evolução bem estabelecido: Hyperledger Fabric e R3 Corda.
O GT tem amplo conhecimento sobre as duas porque testou o potencial de tecnologias blockchain desde a formação do grupo, em agosto de 2016. A avaliação de 25 requisitos mostrou que ambas atendem às necessidades técnicas do protótipo. Pesou a favor da Hyperledger modelo de negócios mais bem ajustado para o setor.
A solução proposta diz respeito apenas aos dispositivos móveis, e não aos seus donos ou usuários. A instituição financeira pode, a qualquer momento, mudar a qualificação do aparelho adicionando nova informação ao sistema.
O GT é formado por representantes de 18 instituições financeiras, incluindo Banco Central, B3, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Câmara Interbancária de Pagamento e Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). O grupo reúne-se quinzenalmente e, após vários testes, concluiu o blockchain ser sustentável no âmbito da indústria bancária.
Blockchain para Remessa de Dinheiro Fiscalizada publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com

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