Jean Tirole (1953- ), ganhador do Prêmio Nobel de Economia 2014, por análise do poder e regulação de mercado, em seu livro Economia do bem comum (1ª.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2020), começa sua resposta pelo óbvio: o financiamento é essencial para a economia. Caso contrário, seria suficiente proibi-lo, salvando-nos de crises e resgates no sistema financeiro.
Obviamente, nenhum país escolheu essa opção. Esquematicamente, o financiamento desempenha duas funções do lado dos mutuários:
- financiar ou ajudar a financiar empresas (desde startups até empresas grandes), famílias e Estados;
- fornecer soluções de modo a proteger contra riscos possíveis de desestabilizá-los;
- ao fazer isso, o sistema financeiro também fornece produtos de poupança/investimento financeiro para as famílias.
O financiamento, em particular, envolve a intermediação entre poupadores mal informados (você e eu) e tomadores de empréstimos. Até recentemente, o negócio principal do banqueiro era receber economias das famílias e direcioná-las para empréstimos concedidos a outras famílias, para elas investirem em imóveis e bens de consumo duráveis, e a PME para permita-lhes financiar seu crescimento ou simplesmente atravessar uma passagem difícil.
Tradicionalmente, as famílias e as PME só podem tomar empréstimos dos bancos, enquanto as grandes empresas costumam ter a possibilidade de se financiar por autofinanciamento e emissão de títulos no mercado de títulos de dívida corporativa direta, como as debêntures.
Ao drenar o dinheiro das famílias para as empresas mais promissoras, ou seja, selecionando as empresas possíveis de se beneficiar dos empréstimos, o setor financeiro participa, portanto, da alocação e realocação dos fundos disponíveis para as empresas capazes de a operação e o melhor uso desses fundos. As finanças são, portanto, um fator essencial no crescimento econômico.
Ao fazer isso, os bancos exercem atividade de transformação de vencimentos e criam liquidez. Eles tendem a emprestar a longo prazo e a emprestar a curto prazo.
Assim, nosso banco nos dá acesso a nossos depósitos, instantaneamente, mas nos empresta a vinte anos quando queremos comprar uma casa. Isso cria uma potencial fragilidade para o banco, à qual Jean Tirole retornará.
Se todos os depositantes reivindicarem o pagamento de seus depósitos ao mesmo tempo, enquanto o banco ainda não tiver os recebimentos correspondentes aos empréstimos concedidos, o último deverá, portanto, obter dinheiro novo para honrar sua promessa de liquidez de depósitos, encontrando outros depositantes ou revendendo as dívidas (empréstimos à habitação e comerciais) possuídas.
As finanças também criam produtos de seguros para empresas, famílias e governos. Assim como uma companhia de seguros nos permite garantir um acidente de automóvel, o incêndio de nosso apartamento, incapacidade ou morte profissional, bancos, companhias de seguros e resseguradoras permitem às empresas proteger contra eventos capazes de comprometer seu crescimento ou mesmo sua sobrevivência.
Portanto, as receitas da Airbus são denominadas principalmente em dólares e suas despesas parcialmente em euros. Logo, uma queda no valor do dólar prejudica suas atividades. A Airbus pode garantir-se contra flutuações na taxa de câmbio dólar-euro por meio de swaps cambiais.
Um banco é frequentemente afetado por flutuações nas taxas de juros. Ele empresta, em média, em curto prazo e empresta em longo prazo. Se as taxas de juros na economia subirem, os custos do banco aumentam, imediatamente, enquanto suas receitas permanecem parcialmente congeladas.
Os empréstimos concedidos a empresas e famílias, geralmente, especificam taxas de juros nominais não indexadas às taxas de juros de mercado. O banco pode se segurar contra esse risco usando um instrumento chamado “swap de taxa de juros”.
Um exemplo: um negócio pode ser enfraquecido se um grande cliente ou fornecedor enfrentar dificuldades financeiras. Ele tem a possibilidade de se segurar contra esse risco por meio de um CDS (credit default swap). Este lhe proporcionará receita nesse evento.
De maneira mais geral, muitos produtos derivativos – produtos cujo valor depende de alterações em outras variáveis, como taxas de câmbio e juros ou a falência de uma empresa – oferecem aos agentes econômicos várias oportunidades de proteção contra eventos possíveis de afetá-los. Como tal, eles são úteis para a sociedade.
Hoje, as atividades de bancos e outros intermediários financeiros são muito mais numerosas e complexas em relação ao passado. As falências de intermediários financeiros sempre foram onerosas para a sociedade, mas as finanças como um todo deram motivos maiores de preocupação desde a crise de 2008. O que aconteceu?
Para o que servem as Finanças? publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com

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