quarta-feira, 27 de maio de 2020

Notas Promissórias em Curto Prazo: Substituição das Debêntures

Ana Paula Ragazzi (Valor, 18/05/2020) informa: as emissões de notas promissórias comerciais cresceram significativamente nos últimos meses. Conforme dados da B3, de janeiro a abril o volume captado pelas empresas com esses papéis subiu 182%, para R$ 15,9 bilhões – 74% do total saiu em abril. As operações começaram a crescer para a casa do bilhão em março, com a chegada da crise.

Fabio Zenaro, diretor de produtos de balcão, commodities e novos negócios da B3, avalia que a nota promissória se adequa às necessidades deste momento.

“Estamos falando de emissões de prazo médio curto, normalmente próximo a um ano. Ou seja, parecem mirar um reforço de caixa para transição nesse período de crise”, afirma Zenaro. O executivo diz que a maioria das empresas que emitiu os papéis já acessava o mercado de capitais. E diz ainda que elas estão inseridas em vários segmentos, com algum destaque para elétricas e varejistas.

Assim como nas debêntures, não há imposto sobre operações financeiras (IOF) nas notas promissórias. Mas há várias diferenças entre os títulos, que facilitaram essas emissões diante das mudanças trazidas pela crise.

Diego Gonçalves Coelho, sócio do Coelho Advogados, afirma que o título é cartular e não precisa ser registrado na junta comercial. Normalmente, é usado para reforço de capital de giro, daí o foco no curto prazo. Ele pode ter prazo maior do que um ano e ser vendido por meio de uma oferta pública de esforços restritos de distribuição, seguindo a instrução 476 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

A Nota Promissória pode ser emitida por qualquer empresa não financeira, seja ela de capital aberto ou fechado, incluindo as sociedades limitadas (Ltda). As debêntures só podem ser lançadas pelas sociedades anônimas (S.A.). O pagamento de principal e juros ocorre só no vencimento da Nota.

“Estruturamos algumas operações com séries de prazos menores, de seis meses, por exemplo, para replicar os pagamentos de remuneração que existem nas debêntures”, diz Coelho. No começo da crise, ele diz que as notas também foram opção porque havia um prazo de quatro meses entre as captações de debêntures por uma mesma empresa. Uma das medidas emergenciais da CVM na crise foi extinguir temporariamente esse prazo.

José Eduardo Laloni, vice-presidente da Anbima, destaca que as notas são menos complexas para serem estruturadas. “Por não contarem com garantias, são colocadas de pé mais rapidamente, ainda mais no momento em que estão todos em home office”, diz Laloni. Por essas característica, ele avalia que grande parte das emissões foram feitas pelas grandes empresas, para reforçar o caixa. Laloni afirma ainda que quase todas elas foram encarteiradas pelos bancos, uma vez que os fundos que compram crédito privado sofreram com muitos resgates nos últimos meses.

“Na crise, secou a demanda pelos papéis de prazo mais longo e mais estruturados que são alvo desses fundos. É uma pena porque o aumento da participação do mercado no financiamento das empresas era um fator a se comemorar”, afirma Laloni. Ele destaca que, futuramente, quando a crise passar, a tendência é que os bancos devolvam ao mercado as notas e debêntures que acabaram encarteiradas.

As notas podem ser depositadas para a negociação na B3, porém como a maioria delas tem o prazo de um ano essa possibilidade de o papel trocar de mãos é menor.

Papéis mais curtos para reforçar caixa na crise também embutiram taxas mais altas, nesse momento de estresse dos mercados. Elas ficaram ao redor de CDI mais um prêmio entre 3% e 4%.

Nos primeiros dias de maio, as operações continuaram a sair, mas sinalizam menor velocidade. De acordo com dados da CVM, a Oncoclínicas do Brasil captou R$ 175 milhões em notas de dois a CDI mais 3,75%. Também de capital fechado, a Energest levantou R$ 100 milhões a CDI mais 2,75% por um ano. Está em andamento uma operação da locadora de veículos Movida, de R$ 80 milhões, a CDI mais 3,50%.

Entre os instrumentos de renda fixa, segundo dados da B3, as debêntures continuaram respondendo pelo maior volume de captações. De janeiro a abril, esses títulos movimentaram R$ 30,7 bilhões, mas o valor é 28% inferior ao registrado em igual intervalo do ano passado.

Também caíram as operações com certificados de recebíveis do agronegócio (CRA), que somaram R$ 1,8 bilhão (-68%). Houve alta de 65% nas emissões de certificados de recebíveis imobiliários (CRI), com R$ 5 bilhões.

Ana Paula Ragazzi (Valor,15/05/2020) informa: o mês de abril continuou a ser de muitas dificuldades para os fundos de crédito privado. Os resgates líquidos alcançaram R$ 31,2 bilhões. Com isso, o patrimônio líquido desse segmento caiu para R$ 173 bilhões – ficou abaixo dos R$ 200 bilhões em que se mantinha há mais de um ano. Ainda de acordo com dados da Quantum Finance, chama muita atenção a queda livre nas aplicações nesses fundos. Em março, esse volume ficou em R$ 15,8 bilhões. Em abril, alcançou 38% disso, ou R$ 6 bilhões.

Os números confirmam as informações de mercado de que a recuperação da liquidez da negociação no secundário com debêntures aconteceu após a chegada de novos interessados nesses papéis, como bancos, fundos de ações e multimercados.

Os fundos de crédito privado cresceram muito no ano passado, mas oferecendo ao investidor a possibilidade de resgate quase que diário. A indústria se desenvolveu assim, apesar de as carteiras comprarem papéis de prazo longo e de não existir um mercado secundário maduro para a negociação desses títulos no país.

Na crise, o investidor resgatou, e os gestores tiveram de vender debêntures a qualquer preço, prejudicando as cotas. Um estudo feito pela Quantum nas carteiras desses produtos até março mostrou que, na média, as carteiras mantêm ao redor de 17% do portfólio investidos em ativos líquidos, como títulos públicos ou bancários. Por isso, a falta de fôlego.

Desde a segunda quinzena de abril os pedidos de resgates têm caído. O fato de ainda atingirem volume relevante no mês passado reflete as solicitações feitas em fundos que tinham prazo de resgate maior, acima de 30 dias, e que foram pagos em abril.

O problema agora é o fato de as aplicações terem sumido. Por conta disso, os spreads de crédito aumentaram e não estão fechando com vigor. Talvez por ser uma classe mais técnica, poucos investidores estão conseguindo ver a oportunidade no segmento.

Ainda existem muitas debêntures de emissores com as melhores notas de crédito, negociadas com taxas elevadas, que seriam normalmente atribuídas a papéis de risco maior.

Assim, o “carrego’ desses fundos, que mede quanto o ativo da carteira rende até a sua data de vencimento, está em patamares recordes, o que favorece o investimento agora. Há papéis com taxas muito atrativas para outros perfis de investidores, como os gestores de multimercados, estarem aproveitando essas oportunidades.

O investidor estaria migrando dos fundos de crédito privado para as carteiras de ações e multimercado. Elas estão, hoje, comprando exatamente o crédito privado.

O baque recente sofrido pelos fundos de crédito foi importante para fazer o investidor entender melhor o produto. Serviu para afastar aquela falsa expectativa de essa ser uma aplicação de baixa volatilidade.

As empresas emissoras das debêntures compradas por esses fundos seriam as mais bem posicionadas para enfrentar a crise. Apesar da brutal queda do valor de mercado das ações delas e do aumento em reais de suas dívidas externas, um gestor de O Mercado não vê grandes problemas de risco de crédito. Uma parcela relevante dos saques veio de cotistas atingidos pela crise. Eles simplesmente precisaram de liquidez…

Notas Promissórias em Curto Prazo: Substituição das Debêntures publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com



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