Adriana Carvalho (Valor, 20/06/19) imagina: durante uma conversa por mensagem no celular, dois amigos decidem presentear um terceiro. Clicam em um ícone no próprio aplicativo e ele envia o valor automaticamente, com a mesma facilidade com a qual se compartilha uma foto.
Outra cena: um consumidor está em dúvida sobre comprar ou não um produto. O varejista faz uma consulta ao CPF e o informa quais bancos podem conceder crédito a ele e qual instituição oferece a melhor taxa de juros.
Operações como essas tendem a se tornar cada vez mais corriqueiras devido ao open banking, modelo de serviço pelo qual informações financeiras dos consumidores são compartilhadas pelos bancos com terceiros (varejistas, aplicativos, etc.), mediante autorização do cliente.
Esse compartilhamento é possível por meio da tecnologia de APIs (Application Programming Interface), que são interfaces de programação digital. Uma pesquisa recente da consultoria Accenture com cem executivos de grandes bancos na América do Norte, Europa e Ásia mostra 99 deles pretendem aumentar os investimentos em open banking até 2020 e 90% deles acreditam que isso elevará suas receitas em até 10%.
Em 2015, a IBM já esperava a economia de APIs alcançar US$ 2,2 trilhões em 2018, valor bem maior em relação ao PIB do Brasil. Esse valor não se refere apenas às empresas do setor financeiro, mas mostra a importância de investir nessas tecnologias.
Se por um lado o open banking traz novas oportunidades de negócios para as empresas e melhores experiências e serviços para os usuários, por outro desperta incertezas do ponto de vista regulatório, de segurança e de privacidade das transações.
A discussão sobre open banking não é nova. Na Europa as primeiras diretivas apareceram em 2007 e em janeiro deste ano entrou em vigor a Revised Payments Service Directive (PSD2). Ela dá as diretrizes básicas para os países do bloco criarem leis nacionais de open banking. Eles têm prazo de 18 meses para fazer isso.
Em países como os EUA, embora ainda não haja regulação oficial, entidades têm criado padronizações para balizar o uso do open banking.
Outro caso interessante é o do México, país mais avançado da América Latina nesse quesito e que recentemente aprovou uma lei sobre fintechs que abre caminho muito grande para o open banking no país.
Além do desafio tecnológico e regulatório, o open banking demanda um esforço para divulgar aos consumidores o que é e quais as vantagens dessa novidade tecnológica. Afinal, eles precisam estar cientes e autorizar o uso de suas informações financeiras.
Os resultados de pesquisa no Reino Unido dão a dimensão do trabalho pela frente: o estudo mostrou 58% dos entrevistados nunca terem ouvido falar de open banking e 77% não tinham interesse em fazer uso dele.
O open banking pode reduzir custos para consumidores, ampliar e melhorar serviços financeiros. Por outro lado, há uma grande preocupação com o uso indevido e a quebra de sigilo bancário, assunto já regulado pela lei complementar 105. Além disso, o BC precisará entender como será sua atuação como supervisor desse novo ambiente onde as informações transitam de uma forma diferente.
Tramitam no Congresso dois projetos de lei (4060/2012 e 330/2013) a disporem sobre tratamento e proteção de dados pessoais. Esses dois projetos são base para o Banco Central definir sua atuação como regulador. Além disso, no BC, há dois projetos para tratar de inovações de produtos e serviços e pagamentos instantâneos.
O Brasil precisa adotar uma regulação específica sobre open banking. A tendência é a cópia dos padrões adotados no Reino Unido.
Por exemplo, o ex-banco Bonsucesso mudou de nome e de estratégia. Vendeu 60% das operações de consignado para o Santander, passou a se chamar BS2 e investiu no desenvolvimento tecnológico para se tornar um banco digital para pessoas físicas e jurídicas, com operações tanto de serviços bancários como de open banking.
Lançou durante a Ciab 2018 uma plataforma de testes para ser avaliada por 40 a 60 dias. Ao final desse prazo, ela deverá estar disponível ao mercado.
A maior oportunidade está no universo de pessoas jurídicas de pequeno e médio porte. Dentro do conceito de open banking, percebeu poder se tornar um banco a serviço de empresas fora do setor financeiro, ofertando diretamente aos seus clientes produtos e serviços financeiros. Assim, aumentariam muito sua oferta de valor.
Um dos novos clientes da BS2 comercializa softwares de gestão de condomínios. A empresa, cujo nome não foi divulgado, tem três mil clientes. São administradoras de condomínios. Por sua vez atendem ao todo 70 mil condomínios onde vivem cerca de cinco milhões de pessoas.
A ideia é por meio de uma API o software permitir às administradoras emitir boletos, fazer pagamentos em lotes e eles já ficarem contabilizados no sistema de gestão, aplicações de fundos de reserva, entre outros serviços.
Outro banco com investimento no open banking é o Original. Para desenvolver serviços nessa área o banco disponibiliza uma plataforma para que desenvolvedores possam fazer testes.
Tem uma plataforma de colaboração. Há mais de 2600 usuários nesse ambiente, que trocam ideias e participam de eventos do tipo hackathon (uma espécie de maratona de programação) e webinars (web conferências).
Além disso, mais de 500 desenvolvedores estão cadastrados na plataforma para ter acesso às APIs do banco e realizar testes. Uma das grandes preocupações durante os testes é com relação à segurança das informações e a prevenção de fraudes.
Nesse aspecto, banco e desenvolvedores se dedicam a estudar, por exemplo, como utilizar segundo fator de autenticação para transações, avaliar o tempo de expiração dos códigos via token, etc.
O Banco do Brasil também disponibiliza uma plataforma para testes de desenvolvedores com as APIs da instituição. Mais de mil desenvolvedores se cadastraram quando houve o lançamento e, após uma rigorosa seleção, foram selecionados cerca de dez para desenvolver projetos.
Para que os bancos abracem de fato o open banking, porém, não basta pensar em APIs. É preciso automatizar processos, fazer estudos analíticos, integrar serviços.
Open Banking: Abertura de Privacidade Não Negada publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com

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