sábado, 6 de abril de 2019

Elementos do Gozo

Mihaly Csikszentmihalyi, no restante do livro “Flow: A Psicologia da Felicidade” (London: Rider; 2017), fornece uma visão geral de o que torna a experiência agradável como um orgasmo ou gozo. Esta descrição é baseada em longas entrevistas, questionários e outros dados coletados ao longo de décadas a partir de vários milhares de entrevistados.

Inicialmente, entrevistou apenas pessoas cujo tempo e esforço eram dedicados a atividades difíceis, mas sem oferecer recompensas óbvias como dinheiro ou prestígio: alpinistas, compositores de música, jogadores de xadrez, atletas amadores.

Seus estudos posteriores incluíram entrevistas com pessoas comuns, conduzindo existências comuns. Pediu a elas descreverem como se sentiam quando a vida delas estava em sua plenitude, quando o que eles faziam era mais agradável ou orgástico.

Essas pessoas incluíam americanos urbanos – cirurgiões, professores, funcionários administrativos e de linha de montagem, jovens mães, aposentados e adolescentes. Elas também incluíram entrevistados da Coréia, Japão, Tailândia, Austrália, várias culturas europeias e uma na reserva Navajo. Com base nessas entrevistas, agora pode descrever o que torna uma experiência agradável ou orgástica e, assim, fornecer exemplos para todos seus leitores poderem usar para melhorar a qualidade de vida.

O orgasmo é o momento quando o prazer da excitação sexual atinge o máximo de intensidade. No homem, provoca a ejaculação seminal e, na mulher, miotonia e contrações uterinas, sufusão tépida e sensação de latejamento pélvico. Ele é o espasmo do coito, seu clímax, com a excitação de um órgão físico – e euforia mental. Infelizmente, logo após vem “a tristeza do coito” ou o sentimento dele ter passado muito rápido.

Mas se referir a uma experiência orgástica é uma metáfora para a efervescência de sentimentos, a excitação incontrolável do espírito possível de se manifestar até em reações físicas. É um êxtase: estado de quem se encontra como tivesse sido transportado para fora de si e do mundo sensível.

Transcendental diz-se de conhecimento ou formulação filosófica, ponto de partida e núcleo essencial de todo o pensamento kantiano, caracterizado por esclarecer as condições a priori da cognição humana, ou seja, o universo lógico e gnosiológico – teoria geral do conhecimento humano, voltada para uma reflexão em torno da origem, natureza e limites do ato cognitivo, apontando suas distorções e condicionamentos subjetivos, em um ponto de vista tendente ao idealismo, ou sua precisão e veracidade objetivas, em uma perspectiva realista.

No conhecimento humano, o transcendental apresenta uma dimensão apriorística, em oposição ao dado meramente empírico. Nesta doutrina filosófica, não deve ser confundido com o que está além da experiência, isto é, o transcendente.

A primeira surpresa encontrada no estudo de Mihaly Csikszentmihalyi foi como atividades similarmente muito diferentes foram descritas quando as pessoas estavam se sentindo especialmente bem. Aparentemente, o modo como um nadador de longa distância se sentia ao cruzar o Canal da Mancha era quase idêntico ao modo como um jogador de xadrez se sentia durante um torneio ou um alpinista quando avançava em uma difícil face rochosa. Todos esses sentimentos orgásticos foram compartilhados, em aspectos importantes, inclusive em atividades incomuns, indo desde músicos compondo um novo quarteto até adolescentes do gueto envolvido em um jogo de basquete.

A segunda surpresa foi quando, independentemente da cultura, estágio de modernização, classe social, idade ou gênero, os entrevistados descreveram o gozo da mesma maneira. O que eles faziam para experimentar o gozo variava enormemente – os idosos coreanos gostavam de meditar, os japoneses adolescentes gostavam de se envolver em gangues de motociclistas –, mas todos descreviam como se sentiam quando se divertiam em termos quase idênticos. Além disso, as razões pelas quais a atividade foi desfrutada compartilhavam muito mais semelhanças em lugar de diferenças. Em suma, a experiência ótima e as condições psicológicas capazes de torna-la possível, parecem ser as mesmas em todo o mundo.

Como seus estudos sugeriram, a fenomenologia do gozo tem oito componentes principais. Quando as pessoas refletem sobre como se sente quando sua experiência é mais positiva, elas mencionam pelo menos uma, e muitas vezes todas, as seguintes.

Primeiro, a experiência geralmente ocorre quando nos confrontamos com tarefas desafiadoras, mas temos a chance de as concluir.

Em segundo lugar, devemos ser capazes de concentração exclusiva na atividade.

Terceiro, a concentração é geralmente possível porque a tarefa realizada tem objetivos claros.

Quarto, a atividade fornece feedback imediato.

Quinto, a pessoa age com um envolvimento profundo e aí sem esforço ela remove da consciência as preocupações e frustrações da vida cotidiana.

Sexta, experiências orgásticas ​​permitem as pessoas exercitarem um senso de controle sobre suas ações.

Em sétimo lugar, a preocupação com o eu desaparece, mas, paradoxalmente, o sentido do eu emerge mais forte depois da experiência da fluidez [flow] terminar.

Finalmente, o sentido da duração do tempo é alterado: as horas passam em minutos, e os minutos podem se estender por horas.

A combinação de todos esses elementos causa uma sensação de profundo gozo. Este desfrute é tão gratificante a ponto de as pessoas sentirem ter gastado uma grande quantidade de energia ter valido a pena – e desejarem sentir novamente aquilo.

Mihaly Csikszentmihalyi examina mais de perto cada um desses elementos, para podermos entender melhor o que torna as atividades orgásticas tão gratificantes. Com esse conhecimento, é possível:

  • alcançar o controle da consciência e
  • transformar até mesmo os momentos mais monótonos da vida cotidiana em eventos capazes de ajudar o self a crescer.

Elementos do Gozo publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com



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