domingo, 12 de julho de 2020

AI, AI, AI… AAI: Agentes Autônomos de Investimento e Home Office de Bancários

Adriana Cotias (Valor, 29/06/2020) informa: a ferida aberta entre Itaú e XP, após o banco, em horário nobre da TV, apontar o dedo para potenciais conflitos na oferta de investimentos via agentes autônomos expõe dilemas que há tempos vêm sendo discutidos pelo setor. Enquanto a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) revisa regras disciplinadoras da atividade desses profissionais, a Anbima, representante do mercado de capitais e de investimentos, tem trabalhado em algumas frentes para trazer mais transparência na relação de quem está na linha de frente com o cliente, seja o assessor independente, o gerente de agência ou o consultor.

Os agentes autônomos não estão debaixo da asa da autorregulação, mas as corretoras e distribuidoras de valores sim, bem como os bancos. Com base na experiência internacional, a ideia é dar mais clareza aos investidores sobre a forma de remuneração de quem faz a distribuição, segundo o presidente da Anbima. Esse é um dos temas da consulta pública da CVM realizada no ano passado.

A própria XP se antecipou ao começar a abrir o comissionamento dos assessores plugados à sua plataforma. A ideia da Anbima é essas informações chegarem a investidores de todos os canais: agências, consultorias de investimentos ou autônomos.

Mas não adianta dar transparência se não for de maneira clara. Se você compara coisas diferentes vira desinformação. A questão é como padronizar informações e definir o nível de abertura a determinados mercados, de forma que o investidor entenda quanto está pagando para a instituição A ou B quando escolhe um produto. Como a CVM pode criar regra própria para isso, a Anbima deve esperar as diretrizes regulatórias para coordenar as mudanças.

Uma das críticas ao modelo de distribuição dos agentes é que, como a remuneração vem exclusivamente do comissionamento pago pelas corretoras pelos produtos que vendem, há incentivo para que privilegiem os mais rentáveis ao seu negócio e não necessariamente ao investidor. Potencialmente replicam conflitos historicamente observados na rede bancária.

Previdência para idosos, título de capitalização para quem pede aumento do limite do cheque especial ou seguro atrelado a empréstimos foram um tipo de oferta comum no modelo de atendimento das agências. Força da concorrência das empresas de tecnologia financeira em diversas áreas que atacam os negócios bancários, aos poucos os grandes grupos de varejo tentam remodelar essa cultura. Na própria Anbima, uma das diretrizes dadas nos últimos anos foi colocar o foco no cliente.

A entidade trabalha na padronização das posições e extratos dos clientes, no aprimoramento das informações de risco e no processo de venda de crédito privado. Isso significa também refinar o enquadramento do perfil de risco do investidor, o chamado “suitability”. Está sendo oferecido o produto correto ao cliente correto?

A MtM (marcação-a-mercado) em Fundos de Renda Fixa DI no início da crise, provocada pela pandemia de covid-19, mostrou como esse é um ponto sensível. Como se trata de um ativo de renda fixa, cai como uma luva no perfil conservador, como se fosse um CDI “vitaminado”. Executivo da área de investimentos ligado a um grande banco conta títulos de maior risco, alguns sem nenhuma classificação das de rating, foram distribuídos amplamente pelo canal dos agentes autônomos. Os profissionais chegaram a receber comissões de 5% a 6% na frente, acima da média de 1%, 1,5% paga usualmente.

A Anbima defende mudanças na qualificação do investidor, segundo Ambrósio, para que não haja um carimbo pelo tamanho do bolso, de “qualificado” (com mais de R$ 1 milhão aplicado) ou “profissional” (com mais de R$ 10 milhões), e sim pelo grau de conhecimento e compreensão de risco.

Ambrósio diz nos últimos anos ter havido uma democratização enorme do acesso a produtos de investimentos. Houve o movimento das plataformas independentes e os próprios bancos reagiram tornando a sua oferta mais aberta a produtos de terceiros. “Sem dúvida, os agentes autônomos, os consultores e os profissionais de distribuição das instituições financeiras foram os grandes responsáveis pela educação e aceleração do acesso. Isso vem acontecendo junto com o aprimoramento do arcabouço legal.”

Num ambiente de juros baixos, com a Selic hoje em 2,25% ao ano, o brasileiro naturalmente se tornou mais ativo em investimentos já que não pode mais contar com a imbatível tríade liquidez, rentabilidade e segurança da renda fixa dos tempos dos juros em dois dígitos.

Na manifestação feita à CVM dentro da consulta pública para reformar as regras dos autônomos, a Anbima defendeu o fim da exclusividade a uma única instituição na oferta de valores mobiliários, como ações e debêntures. Mas o modelo de “multipreposição” teria de vir casado com aumento de responsabilidade, diz Ambrósio. Na relação restrita que existe hoje, as corretoras ou distribuidoras é que monitoram a atividade dos assessores e respondem ao regulador ou à autorregulação por qualquer desvio de conduta ou danos ao investidor.

“Na hora que esse lastro não é só com uma instituição, tem que se aprimorar como se atribui responsabilidades. Ele está representando qual instituição naquele momento [em que algo deu errado]?”

Um ponto que a autorregulação já avançou e que causava fricção é o da portabilidade de investimentos. Para alguns ativos, os critérios foram definidos, deixando de ser mera sugestão de melhores práticas para se tornar obrigatórios neste ano. Há ainda pontos a avançar porque envolve questões tributárias. Na hora que se transfere a custódia é preciso saber como foi feito o recolhimento do imposto, o cálculo de ganho de capital se há compensação tributária. Há ainda uma conversa longa a se fazer com a Receita Federal e a CVM.

Em paralelo, avança a digitalização de bancos. Outra pitada no caldeirão em turbulência está a tendência a permanecer o Home Office para vários profissionais de serviços bancários e/ou escritórios.

Talita Moreira e Barbara Bigarelli (Valor, 23/06/2020) avaliam: imposto às pressas pela pandemia de covid-19, o home office veio para ficar nos bancos brasileiros. Há 230 mil funcionários de instituições financeiras trabalhando de casa desde a segunda metade de março, e para uma parcela desse contingente essa será a nova realidade. Os planos ainda estão sendo finalizados, mas já existe a percepção de que, em muitos casos, a jornada remota não é apenas mais econômica como tem sido muito mais produtiva.

No Banco do Brasil (BB), há planos de manter cerca de 10 mil funcionários de áreas administrativas em jornada parcialmente remota, conforme noticiou ontem o Valor PRO, serviço de notícias em tempo real do Valor. Na crise, 32 mil colaboradores têm atuado remotamente.

A ideia é esse grupo de funcionários, a ser definido com base na percepção do gestor de cada área, trabalhar parte dos dias no escritório e parte em casa. O martelo ainda não foi batido, mas estudos internos apontam uma economia de até R$ 180 milhões por ano em despesas com imóveis – entre aluguel e manutenção – com a implantação de um home office dessa magnitude no BB.

O Bradesco deve concluir em cerca de um mês seus estudos sobre o assunto. Por enquanto, a percepção é a de que entre 30% e 40% do pessoal de áreas administrativas poderá continuar trabalhando de casa e outro grupo de 25% a 30% não precisará ir ao escritório todos os dias, segundo André Cano, vice-presidente executivo que cuida de toda a área de apoio do banco.

Desde as últimas semanas de março, 93% dos funcionários das áreas administrativas do banco e das empresas coligadas, como a seguradora, estão trabalhando de forma remota. Nas agências, há um revezamento, com metade da equipe operando a cada semana. “Já que a gente teve que fazer esse piloto forçado, a conclusão é que há ganhos para a companhia e para os funcionários com o home office”, disse Cano.

Diversas instituições financeiras já vinham, há muito tempo, conduzindo projetos-piloto de home office. Porém, os testes sempre se limitavam a poucas centenas de pessoas. Quando o coronavírus começou a se espalhar pelo país, os bancos se viram forçados a abraçar a causa, e numa escala até então inimaginável. Em duas semanas, colocaram dezenas de milhares de colaboradores para exercer de casa suas funções habituais – inclusive de áreas como atendimento a clientes e segurança da informação.

“O emergencial está nos dando a oportunidade de olhar para dentro de casa e ver onde pode haver ganhos de eficiência”, afirmou Neto, do Banco do Brasil.

O Itaú Unibanco ainda não tem uma estimativa de quantas pessoas poderão ser mantidas em home office, mas a instituição está satisfeita com os resultados que a experiência vem proporcionando. O maior banco do país em ativos está com 53 mil pessoas em jornada remota. Segundo levantamento feito internamente, já respondido por cerca de 16 mil colaboradores, mais de 90% afirmaram que suas atividades podem ser feitas à distância e que poderiam trabalhar de casa, em média, três vezes por semana.

“As reuniões estão mais focadas e o trabalho está mais produtivo, além do benefício de poder passar mais tempo com a família e menos no trânsito”, destacou Sergio Fajerman, diretor-executivo de recursos humanos do Itaú.

De acordo com o executivo, o banco tem dois grupos de funcionários: os que estão trabalhando remotamente e podem continuar assim, e os que precisam atuar de forma presencial, como equipes de agências, vendedores da credenciadora Rede e executivos do atacado que visitam clientes. O pós-pandemia está sendo pensado com essa realidade em vista. Algumas áreas que hoje estão em home office, como parte dos funcionários da corretora e da tesouraria, talvez voltem para o escritório.

No entanto, o Itaú não planeja fazer nenhum movimento de retorno ao trabalho presencial antes do início de setembro. Nada indica que depois disso a volta será rápida. Estamos tão bem assim que não temos por que fazer nada.

No Santander, a possibilidade de home office contínuo está em estudo. A Caixa, por sua vez, não tem planos de trabalho remoto neste momento, mas não descarta

adotar um modelo de jornada com um dia em casa, apurou o Valor. O home office para pessoal de tecnologia e áreas de apoio pode vir a ser discutido mais adiante.

Já está claro, nos bancos, que a necessidade de espaços físicos será menor e que a disposição deles também será diferente. As estações de trabalho serão mais espaçadas – com o distanciamento imposto pela pandemia – e as áreas de convívio vão ganhar importância. “Refletimos se ter a organização em baias é a melhor forma de trabalho. Acreditamos que não, que os mesões funcionam melhor para a colaboração entre equipes”, disse Glaucimar Peticov, diretora-executiva do Bradesco.

O escritório vai ser para manter essa liga entre as pessoas.

A crise também pode acelerar o processo já em curso de redução da rede física. Segundo Cano, as transações em agências caíram 70% na pandemia, e é possível que o Bradesco feche mais unidades que as 320 previstas para este ano. Nesse caso, os funcionários serão transferidos para o atendimento digital ou outras áreas, disse.

O trabalho remoto pode levantar questões sobre a segurança das operações. Mas, em nota, o BC afirmou ao Valor que não há necessidade de autorização específica para que os bancos funcionem em home office. “Independentemente da opção pelo home office, as instituições permanecem obrigadas a cumprir as exigências regulamentares e as determinações decorrentes das atividades de fiscalização do BC, que seguem sendo realizadas”, disse. Uma das exigências é que as “instituições mantenham acessíveis os canais de atendimento aos seus clientes”, inclusive presenciais.

Barbara Bigarelli (Valor, 29/06/2020) informa: em um índice com 30 países, incluindo Estados Unidos, China e África do Sul, o Brasil é o quinto país com maior dificuldade de implementar o home office em larga escala. A conclusão está em um novo estudo do MIT (Massachusetts Institute of Technology), que indica que há países com melhores condições de prosperar economicamente em meio ao lockdown e distanciamento social.

Todos os países em desenvolvimento terminaram nas posições mais baixas do índice, principalmente pela infraestrutura ruim de internet e por características demográficas. Os dados que levaram o Brasil à quinta pior posição foram:

  • 67% da população com acesso à internet a uma velocidade média de 24 mbps;
  • 47% da famílias brasileiras têm morador com menos de 15 anos e
  • a falta de dados disponível a respeito do percentual de profissionais empregados que têm experiência no trabalho remoto.

No geral, o Brasil é um mix em termos do quão fácil ou difícil pode ser a transição para o trabalho remoto. Do lado positivo, há menos pessoas trabalhando em ocupações que exigem alta proximidade física. Por outro lado, os lares brasileiros têm fatores que podem dificultar o trabalho em casa. Muitos têm filhos pequenos que podem distrair os adultos. O acesso e a velocidade da internet também estão bem abaixo da média vista nos países desenvolvidos.

Para os pesquisadores Sarah H. Bana e Seth G. Benzell, do MIT Initiative on the Digital Economy e Rodrigo Razo Solares, da Anáhuac University, no México, o índice pode auxiliar decisões de governos e da liderança das empresas à medida que as economias dos países forem sendo reabertas. Mesmo porque há uma chance razoável, afirmam, de novas paralisações ocasionadas por ondas de contágio do coronavírus ou desastres pós covid-19.

O índice foi formado a partir de quatro componentes.

O primeiro analisa as ocupações dos 30 países e o grau exigido de proximidade para o serviço — produtor junto ao consumidor — seja realizado. Dentistas, barbeiros, garçons e comissários de bordo, por exemplo, não pode trabalhar remoto. Economias com grande participação dessas ocupações, demandantes de alta proximidade, tendem a sofrer mais com o impacto do distanciamento social.

Espanha, Irlanda e Estados Unidos têm mais de 10% de sua força de trabalho em tais ocupações, enquanto China e Brasil têm menos de 5%. Acesso e qualidade da internet, percentual de famílias com um filho em casa e a percentual de profissionais empregados que já trabalham em casa ocasionalmente são os outros componentes.

Luxemburgo, o país mais bem avaliado, possui a maior inclusão digital e ocupa o quarto lugar em percentual de trabalhadores que já têm experiência com home office. Contou também o fato do país europeu, em termos ocupacionais, ter uma alta participação de cientistas, engenheiros e profissionais de negócios e administração, ou seja, trabalhadores que conseguem se adaptar mais ao home office. A Suécia foi a segunda melhor avaliada principalmente porque uma parcela muito grande da população do país já trabalha em casa às vezes (29,4%, maior do que em qualquer outro país da amostra). A Estônia, que é um país conhecido pela ampla digitalização dos serviços públicos, foi a 6a mais bem avaliada. Os Estados Unidos aparecem em 11o e a China em 25o.

A principal conclusão do índice é: nenhum país está totalmente preparado para uma adoção em larga escala do trabalho remoto. Ao implementar medidas de isolamento social, os governos levam em conta também o custo econômico de fazê- lo, enquanto as regiões onde o trabalho remoto é mais difícil de ser realizado podem ser mais suscetíveis a demissões, queda da atividade econômica e até menor demanda por produtos, afirmam os pesquisadores.

AI, AI, AI… AAI: Agentes Autônomos de Investimento e Home Office de Bancários publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com



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