É importante entender o pensamento da direita civilizada, capaz de manter um diálogo em torno da condições existentes para um livre-mercado, de modo a quebrar sua eventual aliança com a direita extremista em costumes conservadores. Para ter empatia na negociação política é necessário saber quais são suas ideias de modo a se colocar em seu lugar, verificando os pontos comuns de um acordo intelectual e político mais civilizatório em vez da regressão proposta pelos fundamentalistas incultos.
Para tanto a leitura do livro de Luigi Zingales é importante. Há pontos relevantes para a reflexão crítica a respeito, inclusive, da nossa recente (e breve) experiência com a socialdemocracia à la brasileira, isto é, a Era do Social-desenvolvimentismo (2003-2014).
No Prefácio do livro “Um capitalismo para o povo: recapturando o gênio perdido da prosperidade americana” (A capitalism for the people: recapturing the lost genius of American prosperity. Library of Congress Cataloging-in-Publication Data; 2012), Luigi Zingales afirma: “os norte-americanos estão irritados. Eles estão irritados com os banqueiros. Contribuíram para a crise financeira, mas não pagaram por isso. Eles estão zangados com o sistema político ineficaz. Culpou os banqueiros, mas mereceu pelo menos tanta culpa por não os controlar. Eles estão zangados com um sistema econômico capitalista: torna os ricos mais ricos e deixa os pobres para trás. Eles estão com raiva porque o ideal de ‘um governo do povo, pelo povo, para o povo’ está em risco de perecer da terra”.
Essa raiva emergiu em muitos movimentos espontâneos: as manifestações em frente às casas dos executivos, o ativismo do Tea Party, o movimento Occupy Wall Street. Embora esses movimentos estejam unidos em sua oposição ao status quo, é uma busca em vão, entre seus escritos e plataformas, uma alternativa viável. Embora o Tea Party tenha canalizado com sucesso a raiva direitista contra o governo, não conseguiu fazê-lo pelo ressentimento contra os banqueiros. Enquanto o movimento Occupy proclama lutar pelo 99%, tem sido incapaz de descobrir como conduzir essa luta da esquerda.
O que Luigi Zingales pode trazer para essa discussão? Em teoria, ele é um deles: um professor de Finanças em uma universidade de ponta (Universidade de Chicago) e com sorte suficiente para estar no top 1% da distribuição de renda.
No entanto, também está com raiva e com medo. Irritado porque a ideia de livre mercado tem sido cada vez mais dominada por interesses empresariais arraigados, alterando fundamentalmente o equilíbrio da democracia americana. Assustado com os americanos, em sua ira justificável sobre o modo como as coisas aconteceram, escolherem um caminho de modo a por fim ao capitalismo americano como o conhecemos.
Apesar de todos os seus defeitos, diz Zingales, “esse sistema capitalista oferece a melhor esperança para a maioria das pessoas. É um modelo onde os defensores da liberdade em todo o mundo buscam orientação”.
Enquanto a sua formação acadêmica lhe dá uma compreensão especial do capitalismo americano, incluindo o que está errado com isso, é outra parte da sua experiência a motivação para ele escrever este livro. Ele é um imigrante para os Estados Unidos.
Ele emigrou da Itália, em 1988, porque estava tentando escapar de um sistema fundamentalmente injusto. A Itália inventou o termo nepotismoe aperfeiçoou o conceito, e ainda vive por ambos. Você é promovido com base em quem você conhece, não no que você conhece.
Os americanos foram recentemente expostos à corrupção do sistema italiano por Silvio Berlusconi, o magnata dublê de político e governante do país por quase duas décadas. Enquanto Berlusconi representava um extremo, mesmo pelos padrões italianos, ele não foi um acidente, mas o produto de um sistema degenerado.
Zingales emigrou para os Estados Unidos porque percebeu isso lhe oferecer um futuro inestimavelmente mais brilhante em lugar do seu país natal. E quando chegou à América, em 1988, não ficou desapontado. Ele experimentou pela primeira vez a sensação inebriante de qualquer meta estar ao seu alcance. Finalmente, chegara a um país onde os limites dos seus sonhos eram determinados apenas por suas habilidades, não pelas pessoas conhecidas.
Onde quer que você esteja no espectro político, seja um republicano conservador ou um democrata liberal ou algum lugar no meio, ele gentilmente sugeriria você não ter ideia de como é viver em um país onde virtualmente não há meritocracia e a competição é considerado um pecado. [Brasil! Brasil! Brasil!] Até médicos de emergência na Itália é promovida com base em afiliação política em vez de habilidade.
Os jovens, em vez de serem instruídos a estudar, são exortados a “carregar o saco” (fare il portaborse) – no Brasil é mais sexual: “puxar-o-saco” – para pessoas poderosas, na esperança de receber alguns favores. As mães empurram suas filhas para os braços dos ricos e poderosos, vendo-as como a única via de promoção social.
O processo de seleção de talentos está tão quebrado a ponto de você encontrar pessoas muito inteligentes empregadas em empregos muito inferiores e pessoas muito medíocres em posições poderosas. [Brasil: confira a mediocridade da equipe ministerial do desgoverno Bolsonaro.] Até 1990, as empresas na Itália podiam abertamente e legalmente conspirar para fraudar seus clientes. Elas ainda conspiram hoje, mas são menos abertas sobre isso. A melhor maneira de ficar rico é estar politicamente conectado e receber um contrato do governo.
Os únicos manifestantes contra esse sistema vieram da esquerda radical. Porém, estava menos interessada em mudar o sistema, mas sim em substituí-lo por um sistema socialista. Em um país cheio de privilégios baseados no nascimento, a esquerda, em vez de lutar pela igualdade de pontos de partida, lutou para eliminar todos os mecanismos de seleção, considerando-os discriminatórios contra os que não têm.
Uma consequência disso foi as universidades não serem seletivas em admissões. Independentemente das suas notas, você poderia entrar em qualquer faculdade desejada, forçando todas as faculdades a atingir padrões mais baixos. A consequência não intencional desse igualitarismo foi ter produzido uma massa indiferenciada de graduados ignorantes em sua maioria. [Brasil! Brasil! Brasil!] As empresas à procura de trabalhadores recorreram à contratação com base no único sistema capaz de funcionar na ausência de ordenação credível: conexões pessoais. [Brasil: QI = Quem Indica.]
Enquanto cursava a faculdade na Itália, Zingales desenvolveu interesse em Economia e esperava estudá-lo no nível de pós-graduação e se tornar um acadêmico. Para o graduado médio da faculdade nos Estados Unidos, essa meta pode exigir a prática de GREs e a análise de vários rankings para descobrir quais são os melhores programas de pós-graduação. Não na Itália.
Muitas pessoas, incluindo seu pai, lhe disseram: se quisesse ter uma carreira universitária, teria de pagar suas dívidas a algum professor local, para carregar sua bolsa [“puxar seu saco”], o que significava essencialmente trabalhar de graça não apenas em seus projetos acadêmicos, mas também em suas consultorias.
Zingales decidiu se inscrever em Universidades nos Estados Unidos. Mas mesmo esse plano não parecia promissor, porque não conseguiu obter uma carta de recomendação do professor mais famoso da sua faculdade na Itália. Quando lhe pediu para supervisionar [orientar] sua tese de graduação, ele recusou, dizendo não ter tempo – apesar de suas excelentes notas, e apesar de ter encontrado tempo para supervisionar [orientar] um colega de classe seu. Ele tinha o apoio de outro professor, reconhecido como pessoa influente.
Quando mais tarde Zingales se aproximou desse professor para uma recomendação, sua secretária lhe disse: ele escrevia cartas apenas para as pessoas orientadas por ele. Assim, ele estava sem sorte.
Ele estudou muito duro para os testes de admissão no MIT. Apesar da sua experiência negativa, considerou voltar para a Itália ao receber seu doutorado do MIT. No exato momento quando a Universidade de Chicago estava lhe contratando, um professor italiano lhe pediu para retirar sua candidatura da competição nacional de professor associado na Itália.
Ele sabia ser difícil, mas se ele fosse contratado em Chicago como assistente, poderia pelo menos tentar competir por uma posição como associado na Itália? O pior a acontecer consigo era seu pleito ser descartado, certo? Não. Disseram-lhe: eles escreveriam um relatório terrível sobre ele. Ficaria no seu registro para sempre. O motivo real – Zingales desconfia – era, apesar da sua pouca idade, ele tinha um currículo melhor se comparado ao do candidato local “que pagara suas dívidas”. Afinal, seu pai estava certo. Eles não queriam Zingales na competição, então eles recorreram a ameaças não tão veladas.
Ele percebeu a Itália não ser para ele. Depois de seis anos, recebeu o cargo na Universidade de Chicago. Na Itália, o processo teria levado mais do que o dobro do tempo. Conseguiu construir uma carreira sem precisar negociar conexões familiares ou, pior ainda, lisonjear as pessoas só porque tinham antiguidade.
Ele deve mais além do seu sucesso profissional a este país [Estados Unidos]: ele deve sua vida. Diz: “Eu não teria sobrevivido às humilhações e frustrações do sistema italiano”.
E assim, até a crise financeira de 2008, ele estava bastante desvinculado do debate político americano. Com todos os seus defeitos, o sistema dos EUA parecia muito melhor do que o italiano, e ele não estava inclinado a fazer muito mais do que apreciar sua boa sorte. Sentia poder acrescentar mais participando do debate público em seu país de origem, onde os problemas são muito maiores e o sistema prejudica as poucas pessoas competentes caso ainda não tenham sido expulsas.
Mas não demorou muito para chegar aos Estados Unidos e começou a perceber coisas parecidas mais com sua origem – como se estivesse assistindo a um filme já visto antes. O primeiro caso foi o resgate em 1998 do maior hedge fundda época: Long Term Capital Management (LTCM). Fundado por genius “quants”, o fundo estava realmente jogando estratégias de arbitragem bastante simples, mas tinha tomado emprestado muito fortemente. Quando algumas dessas estratégias deram errado, o fundo explodiu.
Naquela época, Warren Buffett se ofereceu para resgatar a LTCM, embora de uma maneira a custar a seus proprietários todo o investimento. Em vez de permitir isso acontecer, o Fed interveio e coordenou um esforço de resgate. Ele se mostrou mais generoso para os investidores e gerentes da LTCM – um grupo com David Mullins, ex-vice-presidente do Fed.
Ao contrário de muitos por vir, após 2008, este acordo mediado pelo Fed não custou nada aos contribuintes americanos. Mas o Fed usou a persuasão moral para alterar as regras normais do mercado, pior ainda, para um amigo. Como o Financial Timesescreveu na época, esse era um caso de capitalismo de compadrio, no estilo americano.
Depois veio a ascensão de George W. Bush, herdeiro de um ex-presidente. Sob ele, o Partido Republicano afastou-se dos princípios pró-mercadodefendidos por Ronald Reagan e tornou-se cada vez mais pró-grandes empresas, colocando uma tarifa sobre o aço importado em 2002 para proteger os fabricantes americanos, por exemplo, e oferecendo às empresas taxas especiais para repatriar seus lucros. Ao mesmo tempo, os democratas estavam se tornando mais confortáveis com os interesses das grandes empresas, lançando “parcerias público-privadas”, uma maneira de sugar dinheiro do governo enquanto fingiam fazer o bem.
Quando a crise financeira chegou em 2008, Zingales sentiu ter algo a contribuir para o debate público dos EUA. Como o economista austríaco Friedrich Hayek colocou na introdução de seu livro de 1944, The Road to Serfdom: “Ao passar de um país para outro, às vezes podemos observar duas vezes fases similares de desenvolvimento intelectual.”
O que ele estava assistindo foi a transformação de Finanças americanas em um sistema capitalista de camaradagem de estilo italiano. De fato, de certa forma, a situação americana é pior, porque os americanos, diferentemente dos italianos, não podem colocar a culpa em um cara mau. Berlusconi somos nós. Através de nossos fundos de aposentadoria e investimentos em ações, somos os donos das mesmas empresas capazes de fazerem lobby para pegar nosso dinheiro dos impostos e dominar nossa vida política.
Em jogo não está apenas o nosso dinheiro, mas a nossa liberdade. O cronicismoreprime a liberdade de expressão, elimina o incentivo para estudar e prejudica as oportunidades de carreira. Ele roubou seu país de grande parte do seu potencial de crescimento econômico. Zingales não quer ele roubar os Estados Unidos também.
Este não é um livro acadêmico nem um resumo moderno das últimas descobertas econômicas. Pelo contrário, é uma descrição dos problemas do sistema econômico americano e um apelo apaixonado por mudança– um chamado vindo de um crente forte no sistema de livre mercado. Ele ama a América pelo princípio sempre defendido: liberdade na busca de felicidade.
Finaliza seu prefácio ao dizer: “felizmente, a América tem em seu DNA a capacidade de se reformar. Ao contrário dos cidadãos da maioria dos outros países, os americanos compartilham uma forte crença no poder da concorrência. Como explicarei neste livro, a competição é uma enorme fonte para o bem. Para melhorar o sistema econômico, nós precisamos de mais competição, não menos”.
“Ao contrário de muitos outros países, onde populismo significa demagogia e ditadores autocráticos, a América tem uma tradição populista positiva de proteger os impotentes. Como explicarei, essa veia populista contribuiu muito para tornar o capitalismo americano melhor do que todas as outras formas de capitalismo – e pode continuar a fazê-lo. O capitalismo para o povo não é um paradoxo, mas uma esperança: a esperança de que, ao fundir o melhor da tradição populista americana com sua forte orientação pro-mercado, possamos combater a degeneração do nosso sistema”.
Um capitalismo para o povo: recapturando o gênio perdido só da prosperidade americana publicado primeiro em https://fernandonogueiracosta.wordpress.com

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